
Eliezer Batista da Silva (Foto: Divulgação)
"Estou muito grato pela grande contribuição dos japoneses no Brasil. O Brasil precisa do Japão como aliado. Brasil e Japão somados podem fazer muito. O Brasil tem muito a aprender com o Japão em matéria de produção", disse o consultor-empresarial, ex-chairman da Companhia Vale do Rio Doce e ex-secretário de Assuntos Estratégicos no governo de Fernando Collor, Eliezer Batista da Silva, em palestra proferida no Almoço de Confraternização da Câmara, realizado em São Paulo, no dia 08 de março passado.
Eliezer Batista destacou a inserção do Brasil e demais países sul-americanos no plano internacional, fazendo um discurso desenvolvimentista para a integração desses países. Enfatizou o novo momento da integração latino-americana, fase que, exige dos países do bloco o ajuste fiscal. "Formular novas propostas: como tirar o continente sul-americano da periferia do interesse econômico subdesenvolvido. Dessa situação que queremos sair e achamos que temos condições. Não só de infra-estrutura como o eixo de desenvolvimento do Avança Brasil, mas também procurar novos caminhos com os demais países sul-americanos. Somando forças, a gente tem peso maior", discursou.
O ex-chairman da Companhia Vale do Rio Doce fez menção à presença japonesa, principalmente na década de 70, nos grandes programas bilaterais de infra-estrutura e mineração – importantes do ponto de vista estratégico. De fato, o relacionamento econômico bilateral alcançou naquela década, em termos relativos, patamares elevados. O Japão chegou a ser o segundo credor do Brasil, o terceiro maior parceiro comercial e o terceiro investidor, envolvendo empresas e projetos tais como Usiminas, Albrás-Alunorte, Flonibra-Cenibra, Tubarão, Carajás e Prodecer (Programa de Cooperação Nipo-Brasileiro para o Desenvolvimento do Cerrado).
Ele citou alguns exemplos de consolidação de projetos estratégicos, para a integração física e econômica do Brasil com os países da América do Sul, que já foram, em alguma medida, implementados: o gasoduto Brasil-Bolívia, a ligação rodoviária e energética entre a Amazônia brasileira e a Venezuela, a integração dos sistemas de energia elétrica do Brasil e da Argentina e os avanços feitos na navegação fluvial. Como outro exemplo, mencionou três países – Argentina, Paraguai e Brasil – celeiros de grãos, que poderiam se juntar para se fortalecerem nesse setor no mercado internacional, através de esforços conjuntos em pesquisa agrícola, logística entre outros. Ações essas que têm como objetivo, atrair investimentos, assegurar o crescimento econômico e assim contemplar as necessidades de progresso e desenvolvimento de todos os setores da sociedade da América do Sul.
Em sua análise, o novo momento que o País vive, fruto da democratização, estabilidade e credibilidade conquistada junto aos investidores, exige do governo políticas no sentido de consolidar eixos de integração e desenvolvimento do Brasil e demais países da América do Sul, assegurando infra-estrutura e condições para a expansão econômica, através da exploração das potencialidades econômicas e promoção do intercâmbio comercial com novos mercados. Esses eixos seriam canais geográficos por onde passam, de preferência, simultaneamente, empreendimentos de infra-estrutura nas áreas de logística – transporte e armazenagem -, energia e telecomunicações. Explicando que, nesses eixos, formam-se cinturões de adensamento econômico, causados pela atração de empresas, que se aproveitam das facilidades de infra-estrutura oferecidas. Um exemplo seria o programa de construção de usinas termelétricas em torno do gasoduto Brasil-Bolívia, que pode provocar esse fenômeno, através da atração de empresas que estejam interessadas na redução do custo de produção.
Batista considera de extrema importância o intercâmbio Brasil-Japão, não somente no comércio, ciência e tecnologia, mas no acesso do Brasil aos demais países da Ásia. "O futuro do Brasil é o Sul, Sudeste e Extremo Oriente da Ásia", disse o consultor.
Mencionou o Porto de Sepetiba, localizado na cidade litorânea de Itaguaí, no Estado do Rio de Janeiro, como estratégico porto marítimo para o comércio exterior do Brasil com a Ásia. Localizado junto a importantes áreas produtoras de produtos de exportação nacional, como o minério de ferro de Minas Gerais, a indústria petroquímica do Rio de Janeiro e do grande parque industrial de São Paulo, representando uma alternativa aos movimentados portos de Santos-SP e Tubarão-ES. Explicou sobre a separação das docas do RJ e Sepetiba, a solução dos problemas do ferro-anel de São Paulo para melhorar o acesso a Santos e Sepetiba. "O porto de Sepetiba no Rio de Janeiro, maior "hub port" (porto concentrador e distribuidor de cargas) do hemisfério Sul irá reaproximar o mercado asiático, fortalecendo a participação e o intercâmbio do Brasil na Ásia", acrescentou.
No seu entender, nenhum país do mundo apresenta para o Brasil potencial de complementação e de sinergia econômica como o Japão. O Brasil precisa de capital externo, e o Japão é detentor de mais de US$ 10 trilhões de poupança privada, em um PIB – soma de todas as riquezas produzidas no país – anual de mais de US$ 4 trilhões. As exportações brasileiras, que ainda são essencialmente de matérias-primas, apresentam dificuldades na elevação da receita e o processo de reverter essa situação encontra-se no aumento do conteúdo tecnológico de seus produtos de exportação. E novamente, o Japão destaca-se como parceiro ideal, por ser, caracteristicamente, um manancial de tecnologia de ponta e intermediária.
Como havia proposto o ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, Sérgio Amaral, quando participou de um jantar com membros da Câmara, em São Paulo, no dia 28 de setembro de 2001, um dos caminhos para ampliar as relações Brasil-Japão será "competir em setores que tenham maior valor agregado". Naquela ocasião, Sérgio Amaral propôs investimentos japoneses em conjunto com empresas brasileiras no país, para fabricação de produtos com maior valor agregado para exportação. Seria uma plataforma de exportações mundial a partir das multinacionais que operam no país.
Eliezer Batista enfatizou em seu discurso que o Brasil, com a consolidação das obras estratégicas de infra-estrutura, procura atrair investimentos e empresas – inclusive japonesas – interessadas em explorar diversos setores da economia brasileira, para diversificar a base produtiva e torná-la competitiva no mercado interno e externo, com o objetivo central de melhorar a distribuição de renda, com geração de empregos e oportunidades. "Trazer empresas japonesas ao Brasil e saber, ver onde elas podem colaborar. Vamos engrenar com o Japão. Enfrentei situações muito mais difíceis no passado", afirmou.
Sugeriu a criação do acordo de livre comércio entre os dois países, que poderá ampliar significativamente o mercado de produtos brasileiros, tanto manufaturados como agroindustriais no Japão. De fato, em sua recente viagem ao Japão, em novembro do ano passado, o ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, Sérgio Amaral, deu início às negociações com aquele país para a criação de um acordo de livre comércio com o Mercosul. O tratado envolveria as áreas de comércio, indústria, agricultura e meio ambiente do Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai. O objetivo principal é criar bases para um amplo acordo de exportações. Segundo Amaral, o Japão tem grandes interesses na compra do etanol (álcool combustível) brasileiro para a utilização em seus veículos. O ministro lembrou que o uso do álcool pode ajudar o Japão a reduzir a emissão de gases poluentes na atmosfera, conforme determina o Protocolo de Kyoto.
Sobre a hospitalidade do povo brasileiro, Eliezer disse que o tratamento que os japoneses recebem no Brasil os deixam muito à vontade. “O povo brasileiro tem a boa-vontade e a simpatia pelo Japão. Em nenhum outro lugar no mundo o japonês é recebido como se fosse em casa", declarou.
Membros da Câmara têm encontro reservado com Eliezer Batista
Um seleto grupo de membros da Câmara teve uma conversa reservada com o consultor-empresarial, Eliezer Batista da Silva, após participarem do Almoço de Confraternização da entidade e assistirem à sua palestra.
Eliezer sentou-se na mesa ao lado do presidente da Câmara, Akira Kudo, e, depois, manteve contatos individuais com cada um dos participantes.
Rubens Ito – CCIJB – 08/03/2002





