Risco-Brasil melhora
Ao longo das últimas semanas, uma série de eventos produziu uma importante melhora na percepção do chamado risco-Brasil, a saber:
. O candidato governista (senador José Serra) obteve índices nas pesquisas de opinião esperados apenas para abril ou maio, ao mesmo tempo em que a principal candidatura oposicionista (Lula-PT) experimentava novas quedas nas mesmas pesquisas. Curiosamente, a crise na aliança governista entre o PFL e o PSDB depois do episódio envolvendo a governadora Roseana Sarney teve reflexos modestos sobre o humor dos mercados. Há a crescente percepção de que os principais aspectos da política econômica serão mantidos no próximo governo;
. O fluxo de capitais externos tem mostrado uma grande solidez, garantindo um financiamento tranqüilo das contas externas, mesmo diante da perda de performance da balança comercial nos últimos meses;
. A inflação tem mostrado uma maior resistência à queda, mas a retomada ainda lenta da demanda doméstica, a entrada de uma nova safra recorde de grãos e a relativa estabilidade cambial dos últimos meses sugerem novas quedas dos índices inflacionários nos próximos meses, mesmo diante da pressão dos preços internacionais de petróleo;
. Os indicadores de uma retomada mais forte e rápida da atividade econômica nos Estados Unidos têm se avolumado, levando diversas instituições a promover sucessivos ajustes para cima de suas previsões de crescimento para os próximos trimestres. Essa trajetória mais acentuada de recuperação nos EUA possibilita uma melhora da demanda por exportações brasileiras – especialmente diante da disseminação de tal recuperação para outras economias, em particular a européia;
. A crise argentina, embora longe de um desfecho mais positivo, parece cada vez menos capaz de influenciar as decisões de investimento para o Brasil. O chamado descolamento parece consolidado e nem mesmo uma piora adicional da crise da Argentina parece capaz de produzir algum efeito mais significativo sobre o Brasil.
A esses fatores juntou-se a inesperada decisão do BC em fevereiro de cortar em 0,25 pontos-percentuais a taxa básica de juros – a SELIC. Ficou claro, a partir daquela decisão, que o combate à inflação não seria feito a qualquer preço, especialmente no que diz respeito ao crescimento econômico.
É inequívoco que os níveis atuais dos juros reais são desnecessariamente elevados diante das condições atuais de diversas variáveis, domésticas e externas. Assim, criaram-se as condições para um ciclo de queda dos juros e o que o Banco Central fez foi apenas antecipar o "timing" desse processo.
A vida do cidadão brasileiro não melhora
Essa percepção do tamanho exagerado dos juros reais é ainda mais clara quando se avalia o quadro atual da atividade econômica. A recuperação é visível, mas sua velocidade e vigor são bastante questionáveis.
Já na edição anterior alertávamos para o fato de que a retomada em vigor desde o final do ano passado estava longe de ser homogênea. Os primeiros indicadores disponíveis de 2002 apenas confirmam essa avaliação.
De um lado, a indústria mostrou um desempenho bastante positivo em janeiro, com a produção crescendo 1,3% em relação a dezembro passado, já descontados os fatores sazonais do período.
Por outro lado, as vendas reais do comércio continuam mostrando quedas expressivas, seja quando comparadas com os meses anteriores (ajustando-se os fatores sazonais), seja quando confrontadas com o mesmo período do ano passado. A importante perda do poder de compra real dos salários ao longo de 2001, um mercado de trabalho ainda longe de aquecido e as ainda elevadas incertezas sobre o futuro mantêm os consumidores numa postura mais cautelosa.
O que se vê, então, pode ser apenas um movimento de formação de estoques pela indústria que, se não for sucedido por um maior vigor do consumo, pode resultar em nova redução da atividade industrial num futuro não muito distante, para que tais estoques sejam absorvidos.
É verdade que a própria perspectiva de queda futura dos juros deve estimular o consumo, mas é temerário projetar taxas muito elevadas de crescimento, ao menos no curto prazo.
Céu de brigadeiro ?
Em resumo, o viés da economia brasileira é positivo, com um espaço razoável de corte de juros, mas que depende em muito da manutenção da retomada da economia dos EUA e da continuidade do fluxo de capitais externos. Porém, sem a reforma política, um processo eleitoral conturbado poderá ampliar a distância entre a macroeconomia do governo e a microeconomia do cidadão comum. O Brasil corre o risco de continuar dependente de políticos e de capitais externos. Isso não seria uma novidade para o Brasil. Para melhorar isso vamos depender basicamente do que plantarmos neste ano, em especial em outubro, com a vigilância coletiva do processo eleitoral, sobretudo dos fundos eleitorais.
Yuichi Tsukamoto, consultor em Empreendimentos Internacionais e professor do Programa de Mestrado Executivo da FIA-USP (Fundação Instituto de Administração da Universidade de São Paulo).





