“O Brasil como fornecedor estratégico de álcool etanol” foi o tema da palestra ministrada na Câmara, no dia 28 de fevereiro, pelo presidente da Unica – União da Agroindústria Canavieira de São Paulo, Eduardo Pereira de Carvalho. O evento que contou com a presença do presidente Makoto Tanaka, teve a participação de cerca de 50 associados e foi organizado pelos departamentos de Consultoria e Assessoria, presidido por Teiji Sakurai (presidente do Japan External Trade Organization de São Paulo – Jetro) e de Comércio Exterior, presidido por Junichi Nakamura (presidente da Marubeni Brasil S/A.).
O Protocolo de Kyoto, firmado em 1997, entrou em vigor no dia 16 de fevereiro deste ano. Ele propõe a redução da emiss
ão de gases causadores do efeito estufa – principal responsável pela mudança do clima na Terra e vai trazer enormes benefícios para o mundo. “Para o Brasil, o benefício será mais do que ambiental. Será também econômico, uma vez que, com a nossa matriz energética entre as mais limpas do mundo, temos o privilégio de poder fazer jus a créditos de carbono – o que promete ser outra fonte de renda para o setor canavieiro, ao lado do açúcar, do álcool e da co-geração de energia elétrica”, explica Eduardo Carvalho.
Ele disse que o interesse do mundo pelo álcool brasileiro não é apenas retórico, mostrando dados da balança comercial que comprovam o volume recorde do produto embarcado em 2004. Lembrou que de acordo com números da Secretaria de Comércio Exterior (Secex), foi exportado até dezembro passado o volume recorde de 2,4 bilhões de litros de etanol. “Esse foi um resultado extraordinário, até porque houve mudança no perfil do produto exportado. Normalmente, o nosso forte é a exportação de álcool para uso industrial. No entanto, no ano passado predominou o embarque de etanol combustível. No ano, as exportações de açúcar e álcool movimentaram cerca de US$ 3 bilhões.”
O presidente da Unica citou os principais clientes do álcool brasileiro até novembro de 2004, destacando os Estados Unidos que, entre compras diretas e via Caribe – região beneficiada com tarifa zero até um determinado volume pela Caribbean Basin Iniciative (CIB) -, receberam 592,671 milhões de litros, sendo a maior parte carburante. “Foi a primeira vez que os norte-americanos compraram um volume significativo diretamente do Brasil, uma vez que incide sobre o nosso produto a sobretaxa de US$ 0,54 por galão, além do imposto de importação de 2,5%”. Lembrou que a Índia adquiriu 400,936 milhões de litros, enquanto o porto de Rotterdam, na Holanda, recebeu 207,152 milhões de litros. Ainda segundo Eduardo Carvalho, o Japão ficou com 158,885 milhões de litros do produto para uso industrial, enquanto Nigéria e Coréia do Sul responderam por 126,348 milhões e 112,321 milhões de litros, respectivamente.
Na sua avaliação, para este ano, o setor espera não só manter as exportações de álcool nos mesmos patamares do ano passado, como também aumentar a produção para abastecer o mercado interno, em expansão devido à forte demanda pelos veículos flex fuel. “É a energia limpa e renovável conquistando espaço”.
Unica
A Unica surgiu em 1997 da necessidade de organização do setor de açúcar e álcool, diante da desregulamentação ocorrida no final dos anos 90. O fim da interferência do governo marcou o início da adaptação do segmento ao mercado livre, o que levou à profissionalização da entidade, em 2000, com a criação do cargo de presidente executivo – processo que avançou em 2003, com a introdução dos cargos de diretor técnico e de secretário-geral. Com a experiência das entidades empresariais que a antecederam, a Unica representa mais de 100 unidades produtoras, agrupadas em dois sindicatos – o da Indústria da Fabricação de Álcool no Estado de São Paulo (Sifaesp) e o da Indústria do Açúcar no Estado de São Paulo (Siaesp). É a representante dos produtores de cana, açúcar e álcool no Estado de São Paulo, Brasil, contando, entre suas unidades industriais associadas, com as que fabricam açúcar e álcool; as que se dedicam apenas à produção de álcool; e as que se concentram na produção de açúcar. A Unica é, ainda, a guardiã da memória estatística da produção brasileira de cana, açúcar e álcool. Suas previsões sobre a safra sucroalcooleira no Centro-Sul são reconhecidas por sua exatidão, resultado de levantamento cuidadoso de dados.
A Unica dedica-se à expansão dos mercados de álcool e açúcar em diversas frentes. Para tanto, tem apoiado as iniciativas governamentais pela derrubada das barreiras protecionistas no campo externo. Também defende a universalização da produção e do uso de álcool combustível, para que este se torne uma 'commodity' ambiental, com a abertura de mercados como oxigenante da gasolina ou como combustível principal em veículos de tecnologia avançada – entre elas, o flex-fuel e as células de hidrogênio. A Unica ainda apóia a mistura de álcool no óleo diesel e políticas de expansão do uso da biomassa na matriz energética brasileira. O valor ambiental dos produtos da cana faz com que a Unica incentive a diversificação das atividades dos países produtores de açúcar, para que também se dediquem à produção de álcool e à co-geração de energia, tanto no que se refere à melhoria da saúde pública quanto ao meio ambiente. A Unica tem desenvolvido políticas que dêem competitividade à biomassa, uma alternativa concreta às fontes fósseis de energia (petróleo, carvão mineral e gás natural), devido a suas propriedades ambientais, sociais e econômicas – entre elas, a redução da poluição atmosférica, principalmente em grandes centros urbanos, e a diminuição do efeito estufa. A biomassa ainda permite gerar mais empregos e descentralizar a renda. Também reduz a dependência do petróleo importado – cujas reservas concentram-se numa das regiões mais instáveis do planeta, o Oriente Médio, aumentando, assim, a economia de divisas. Para o açúcar, a Unica defende a adoção das medidas necessárias à ampliação do mercado mundial – um dos mais protegidos -, bem como a redução do apoio interno e a eliminação dos subsídios à exportação. Para tanto, participa ativamente de organizações internacionais que lutam pela liberação desse mercado, como a Global Sugar Alliance. No mercado interno, a entidade busca reagir contra o crescimento do uso de edulcorantes sintéticos. Em termos estruturais, a Unica propõe aprofundar a autogestão do setor, iniciada com a desregulamentação, com o aperfeiçoamento das estatísticas, dos mecanismos de produção, comercialização e financiamento, além da adequação do ambiente institucional, como a reforma tributária (Cide, ICMS, PIS/Cofins etc), o estabelecimento de garantias para a co-geração. Também tem estimulado, entre seus associados, a adesão às ações ligadas à responsabilidade social.
Rubens Ito / CCIJB – 28/02/2005





