Três dados da economia brasileira

Roberto Mangabeira Unger

Há três dados da realidade econômica do Brasil que ultrapassam em importância todos os outros. Do correto entendimento da relação entre eles depende a formulação de novo rumo para o desenvolvimento brasileiro.

O primeiro dado crucial é que o juro real (o juro descontada a inflação) é maior do que a taxa média de retorno dos negócios. É maior se desconsiderarmos os bancos, os maiores beneficiários do regime atual, e as concessionárias de serviços públicos, com lucros mais ou menos garantidos pelo governo. Não há economia que possa crescer sob tal ônus.

A superioridade do juro real à taxa média de retorno dos negócios equivale a imposto que quem produz ou trabalha paga a quem empresta dinheiro ao Estado. O governo acaba sendo apenas o intermediário da operação, que representa, para inverter frase de Keynes, a eutanásia dos produtores.

Situação insustentável. Em primeiro lugar, porque viver de renda passa a ser melhor do que viver de trabalhar e produzir. Em segundo lugar, porque o próprio governo, já enfraquecido em sua capacidade de investimento em gente ou em base produtiva, não pode continuar pagando a festa dos que vivem de renda, emprestando dinheiro ao Estado. E tanto não pode, que não paga: a maior parte dos juros da dívida pública interna vem sendo acrescida ao principal devido. Um dia, o medo falará mais alto do que a ganância: os mercados financeiros perceberão que o jogo não pode continuar.

O segundo dado básico da nossa economia é que ocorrem, pontualmente, milagres de renovação do nosso padrão produtivo. A difusão de conhecimentos e de capacidades, a descoberta de métodos para emular a ponta da produção internacional com os meios à mão e a substituição da alternância entre a cópia e o improviso por práticas de inovação permanente, dão a algumas das nossas cadeias produtivas condições de iniciar salto para frente.

A necessidade, mãe da invenção? O desafio é bom se não for demais: só se generalizará o avanço se o custo do dinheiro não inviabilizar a atividade empreendedora. Assentar as finanças públicas sobre a tributação de base maior de consumidores, desonerando a produção, mobilizar a poupança de longo prazo para o investimento de longo prazo, diminuindo a dependência do financiamento externo, e ampliar o acesso ao crédito, ao conhecimento e às tecnologias em proveito de uma multidão de empreendedores emergentes são as chaves para baixar os juros e aprofundar a renovação produtiva. Sem dar calote nem desorganizar o sistema financeiro.

O terceiro dado fundamental da nossa vida econômica é que metade dos brasileiros vive de biscate, presa no mercado informal de trabalho. O resultado é desperdiçar grande parte da energia da nação, reduzir a escala da produção e do consumo e permitir que o medo, a desesperança e a incapacitação envenenem tanto o nosso dinamismo quanto a nossa democracia. Qualquer política social que não ajude a trazer a metade descartada do país para a vida dos direitos, dos empregos e das capacitações será mentirosa e impotente. E deixará o crescimento capenga.

Quando começarmos a dar empregos aos biscateiros e primazia às exigências da produção, voltaremos a crescer. Será dessa vez desenvolvimento com justiça. É o que o Brasil quer, e o que a política – só a política – pode construir.

Roberto Mangabeira Unger, filósofo, professor-titular de Direito da Universidade de Harvard (EUA) e presidente do Instituto Desenvolvimento com Justiça (IDJ). Um dos mais respeitados pensadores sociais nos círculos universitários norte-americanos.