Cônsul-geral do Japão prestigia almoço da Câmara

Cônsul-geral do Japão prestigia almoço da Câmara


cônsul-geral, Kiyotaka Akasaka

Vista geral do Almoço de Confraternização

Pelo menos 100 empresários e executivos associados à Câmara assistiram no dia 09 de agosto, durante almoço de confraternização, na cidade paulistana, à palestra proferida pelo cônsul-geral do Japão em São Paulo, Kiyotaka Akasaka, abordando a Cúpula Mundial sobre Desenvolvimento Sustentável, que começa no dia 26 de agosto, em Johannesburgo, na África do Sul, para discutir e traçar perspectivas futuras do planeta.

Kiyotaka Akasaka acumula a função de vice-chairman da Comissão Preparatória para a mencionada conferência, também conhecida como Rio+10, por ser realizada dez anos após a Conferência Internacional das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento – Eco-92, ocorrida na cidade do Rio de Janeiro em 1992.

Mais de 40 mil delegados e cerca de cem chefes de Estado e de governo são esperados na cidade sul-africana, no encontro patrocinado pela Organização das Nações Unidas (ONU). O evento que contará, inclusive, com as presenças do presidente Fernando Henrique Cardoso, do primeiro-ministro britânico, Tony Blair, do presidente francês Jacques Chirac e do primeiro-ministro japonês Junichiro Koizumi, será a maior cúpula da história da ONU.

O cônsul-geral, Kiyotaka Akasaka, participou do almoço com os associados ao lado do presidente Akira Kudo, dos vice-presidentes, Makoto Tanaka e Shinzo Kagitomi, do conselheiro-fiscal, Tadashi Yamada, do chefe do Departamento de Vegetação Florestal do Instituto de Pesquisa sobre Florestas e Produtos Florestais do Ministério da Agricultura, Silvicultura e Pesca do Japão, Masahiro Saito e do diretor de Cooperação Técnica da JICA (Japan International Cooperation Agency) em São Paulo, Akihiro Matsumoto.

O que é desenvolvimento sustentável?

A ONU criou, através da Comissão Mundial para o Meio Ambiente e Desenvolvimento, o conceito de desenvolvimento sustentável: um modelo que busca satisfazer as necessidades presentes, sem comprometer a capacidade das gerações futuras de suprir suas próprias necessidades – utilizar recursos naturais sem comprometer sua produção, fazer proveito da natureza sem devastá-la e buscar a melhoria da qualidade de vida à sociedade.

A integração e o equilíbrio econômico, as preocupações sociais e ambientais são fundamentais para a conservação da vida humana na Terra. Para que esses objetivos sejam alcançados, é preciso lançar um novo olhar para como produzimos e consumimos, como vivemos, trabalhamos, como nos relacionamos com as pessoas e como tomamos decisões. O conceito é revolucionário e como todas as idéias originais, alavanca debates fervorosos entre governantes e cidadãos, sobre como atingir esta sustentabilidade.

Durante a palestra, o cônsul observou sobre as causas da destruição planetária, citando a pobreza mundial, a escassez de água e a questão energética. "1,2 bilhão de pessoas vivem com menos de um dólar por dia, e metade da população mundial vive com menos de 2 dólares por dia. 50 milhões de brasileiros recebem menos de 80 reais ao mês, insuficientes para garantir o sustento mínimo necessário", disse. "Por volta de 2,4 bilhões de pessoas no mundo estão sem acesso a saneamento básico, e cerca de 1,3 milhão de crianças, com menos de 5 anos de idade, morreu desidratada por diarréia em 2000", citou. "Mantido o consumo de energia no ritmo atual, no ano de 2035 precisaremos do dobro da energia produzida em 1998, e o triplo em 2055, enquanto aceleramos o aquecimento global com a emissão de dióxido de carbono", explicou.

Citando passagens do seu trabalho na OMS (Organização Mundial da Saúde), em países subdesenvolvidos, e na ONU, inclusive fixando metas diversas, ele salientou que a Conferência do Rio e o Protocolo de Kyoto não tiveram os resultados esperados, mas demonstraram esperanças nos trabalhos desenvolvidos para a preparação desta cúpula na África do Sul, e, sobretudo, no empenho da livre iniciativa, exortando as empresas e os países emergentes e subdesenvolvidos a participarem das iniciativas, para assumirem suas parcelas na responsabilidade global.

Segundo o cônsul, a cooperação internacional, embora se remeta à ODA (Assistência Oficial ao Desenvolvimento), composta pela ajuda dos países desenvolvidos, na verdade, não compõe uma parcela tão grande quanto se imagina na cooperação internacional. "Em 2001, foram US$ 53,7 bilhões, menos do que os 60,8 bilhões de dólares de 1992", citou.

O cônsul disse que a cooperação internacional japonesa, a maior do mundo, foi de US$ 13,5 bilhões em 2000, e já chegou à ordem de US$ 200 bilhões acumulados. Segundo ele, excetuando-se alguns países nórdicos, todas as nações desenvolvidas cumprem as metas internacionais, de destinarem pelo menos 0,7% do seu PIB para a ODA. "Mesmo, porém, que todos os países desenvolvidos cumprissem essa meta, o valor ficaria abaixo dos investimentos diretos destinados aos países emergentes e subdesenvolvidos, que foram de US$ 160 bilhões em 1999, o triplo do valor de desembolso atual da ODA, e um crescimento vertiginoso em relação aos US$ 36 bilhões de 1992", acrescentou.

Outro fator importante no prognóstico do cônsul sobre a economia mundial, hoje, é a liberalização do comércio exterior, "só o Japão importa US$ 200 bilhões, anualmente, de países emergentes e subdesenvolvidos". Também, reconheceu a dificuldade que esses países enfrentam em suas exportações, diante das barreiras tarifárias e não-tarifárias impostas pelos países desenvolvidos: "as barreiras dos países desenvolvidos prejudicam muito essas nações. Os subsídios dos países da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico) aumentaram de US$ 560 bilhões anuais para US$ 725 bilhões. Só para a agricultura, são destinados 362 bilhões de dólares por ano", explicando que "caso esses entraves comerciais fossem removidos, a renda nos países emergentes e subdesenvolvidos aumentaria de US$ 200 a 500 bilhões ao ano, ou de quatro a dez vezes o valor da ajuda oficial internacional". Isso segundo ele, "demonstra como o Brasil está com a razão, ao questionar tanto, os subsídios nas negociações da OMC".

Ainda com relação ao Brasil, o diplomata mencionou o fluxo imigratório. Imigrantes ao redor do mundo remeteram US$ 100 bilhões aos seus países de origem em 1999, quase o dobro do desembolso da ODA, e um salto notável em relação aos US$ 2 bilhões de 1970. Lembrou que os 250 mil nipo-brasileiros no Japão enviam todos os anos ao Brasil, de US$ 2 a 2,5 bilhões anualmente. Observou que se os países do G-8 (excetuando a Rússia) liberassem 4% da sua força de trabalho para a mão-de-obra imigrante, a renda resultante das remessas desse contingente pularia para US$ 200 a 220 bilhões anuais, aproximadamente o quádruplo do valor atual doado pela ODA.

Por outro lado, lembrou também que as doações de entidades privadas como a Fundação Bill Gates, a Fundação Rockfeller e o Rotary Club, embora bastante alardeados pela imprensa, são estimadas em US$ 3 a 4 bilhões em 2001, cerca de um décimo dos valores cedidos pela ODA.

"Isso demonstra como a assistência financeira e a cooperação técnica, tão requisitadas pelos governos dos países emergentes e subdesenvolvidos, não podem ser avaliadas, unicamente, pelo maior ou menor volume dos valores da ODA, cujo peso relativo tende a diminuir cada vez mais, daí a importância ainda maior, da parceria entre empresas, ONGs e entidades civis", explicou.

"O Brasil teve um papel importante na cúpula do Rio, e está participando ativamente da cúpula de Johannesburgo, assim como tem feito no comércio exterior, desenvolvimento social, entre outros", afirmou. Já o Japão, em sua análise, teve a perspectiva nítida de que a cúpula Rio+10 seria uma reunião da mais extrema importância. O diplomata disse que, desde 1997, o GEA, um grupo composto por estadistas e empresários japoneses, vinha se preparando para o evento, e queria ver o mesmo ser realizado na China. "Diante da postura totalmente omissa do governo chinês, o Japão ofereceu sua ajuda a todos os países interessados em sediar a cúpula, inclusive Indonésia e África do Sul", declarou.

"Desde 1997, o Protocolo de Kyoto é um documento essencial na discussão ambiental, do qual o Japão cumpre um papel de líder dos problemas ecológicos do planeta. E desde junho, o Japão está norteando sua política pelo texto do protocolo, exigindo grandes sacrifícios de todos os setores da nação, com o comprometimento do governo, das empresas e da população", observou o diplomata.

O cônsul-geral comparou a situação em que se passava o Japão, algumas décadas atrás, com o momento atual. "Esse país, até há pouco tempo, era totalmente subdesenvolvido. A taxa de mortalidade infantil do Japão em 1916 era de 170 para cada 1000 nascimentos, o mesmo do Afeganistão e de Angola em 1999. Em meus tempos de garoto, em meados de 1950, o vilarejo onde morava tinha pouquíssimas casas com água encanada, e a maioria da população não tinha guarda-chuvas. Assim, em dias de chuva, muitas crianças faltavam à aula. Todavia, a escola era um prédio esplêndido construído na Era Meiji", descreveu durante o seu discurso.

Os investimentos em saúde e educação foram um dos aspectos observados pelo cônsul. "O Japão sempre adotou políticas que privilegiavam, acima de tudo, a saúde e a educação do povo, que mais tarde possibilitaram o crescimento vertiginoso do país", disse. Lembrando que, a mesma opinião é expressa pelo professor Jeffrey Sachs, da Universidade de Harvard (EUA), que de acordo com o cônsul, elogia a experiência japonesa na conciliação do bem-estar com o crescimento macroeconômico.

O diplomata destacou que o gigantesco volume de experiências e conhecimentos adquiridos nesse processo, bem como os desafios enfrentados pelo Japão com a poluição e a economia de energia, podem servir como diretrizes preciosas para um grande número de países emergentes e subdesenvolvidos, e empresas.

O cônsul Akasaka também observou que as empresas sócias da Câmara estão na vanguarda do "desenvolvimento sustentável", atuando com destaque nos mais diversos setores brasileiros, "embasados pela tecnologia de ponta, a experiência e as informações acumuladas pelo Japão, não se limitando à estreita busca do lucro empresarial", declarou. "Essas empresas estão incrementando o "capacity building", que os países emergentes estão buscando", completou.

Ao finalizar o seu discurso, Kiyotaka Akasaka, conclamou os associados a estarem atentos com a cúpula da ONU. "Esperamos que os senhores acompanhem com interesse a cúpula de Johannesburgo, e reflitam em suas áreas de atuação, sobre o sentido da expressão "desenvolvimento sustentável" ", destacou o cônsul-geral.