As potencialidades da agricultura e da agroenergia do Brasil foram o centro da palestra feita no dia 13 de abril pelo ex-ministro da Agricultura, Luís Carlos Guedes Pinto a empresários e investidores que participaram da Confraternização dos Associados, promovida pela Câmara, em São Paulo. Para uma platéia de mais de 130 pessoas, Guedes Pinto, que foi ministro até recentemente (final de março), destacou a importância do empresariado japonês e disse que o governo está colocando o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento no papel de indutor do desenvolvimento do agronegócio. “O governo tem que continuar investindo na atuação qualificada e ágil ao setor agrícola e propugnar pelo desenvolvimento, tanto econômico quanto social, continuar investindo em comércio e tecnologia, na pesquisa agropecuária, no aperfeiçoamento da produção agrícola, na busca de uma a política menos reativa e com maior ação, no fortalecimento do mercado futuro, no aperfeiçoamento das negociações internacionais e na criação de mecanismos para uma relação de eqüidade entre produtores rurais e grandes compradores (tradings e indústrias), atacando de frente a questão ambiental, o problema do seguro rural e assim por diante”.
Inicialmente, Guedes comentou em sua fala da contribuição do Japão e dos imigrantes japoneses na agricultura brasileira. “Todos nós que trabalhamos neste setor do agronegócio sabemos da extraordinária contribuição dos japoneses e seus descendentes na agricultura. Os japoneses se caracterizam pela capacidade de trabalho, de organização e de associação”, nota o ex-ministro.
Na palestra aos membros da Câmara, o ex-ministro Guedes lembra da “participação importantíssima dos japoneses na ocupação do Brasil Central” a partir da década de 70, através da parceria bilateral no desenvolvimento do Cerrado brasileiro, o Prodecer (Programa de Cooperação Nipo-Brasileira para o Desenvolvimento dos Cerrados). Hoje, além da agricultura, os nipo-brasileiros estão presentes atuando nos diversos setores produtivos do país como na indústria e nos serviços.
O Brasil, segundo o ex-ministro, é um país privilegiado, pois dispõe de um “potencial extraordinário”, especialmente para o desenvolvimento da agricultura, da agroenergia e de todos os setores a ela articuladas, o agronegócio, fortalecimento este, ressaltado por ele, sem colidir com os setores industriais e de serviços do país.
O ex-ministro afirmou que este ano o Brasil vai produzir cerca de 131 milhões de toneladas de grãos, ante os 60 milhões de toneladas há 15 anos. Nesse período, a agricultura cresceu muito rapidamente no país. O agronegócio brasileiro respondeu por 93% do superávit (saldo positivo) comercial alcançado pelo país no ano passado, que chegou a US$ 46 bilhões. Isso, explica ele, ocorreu com apenas mais 20% de aumento da área e 80% no ganho da produtividade, isso fundamentalmente se deu a carnes, ovos, frango, crescimento expressivo devido à incorporação de tecnologia e aumento da produtividade. “Nós temos terra, condições naturais, tecnologia e os nossos produtos têm demonstrado grande competitividade nessa área”, disse. Guedes esclareceu aos investidores que o país pode ingressar ao processo produtivo mais de 100 milhões de hectares, “sem sequer a necessidade de derrubar uma única árvore, uma condição rara no mundo”, uma forma de desenvolvimento sustentável em respeito ao meio ambiente. Um estudo do ministério sobre a devastação no mundo, conforme ele citou, o Brasil, em comparação a outras nações, aparece em posição melhor situada na preservação da natureza. “O país tem 69,4% de suas florestas originais, enquanto a Europa tem apenas 0,3%, a África, 7,8%, a Ásia, 5,6%, a Oceania, 22,3%, e a América Central, 9,7%, enquanto que a média mundial é de 24,1%”, destacou.
O Brasil, também destacou o ex-ministro, é um dos países que menos concedem subsídios aos agricultores. “O Brasil é um dos países que menos subsidiam a agricultura com 3%, a Nova Zelândia, 2%, a Austrália, 4%, os Estados Unidos, 17%, o Canadá, 22%, a União Européia, 34%, e o Japão, 58%”, disse. O protecionismo dos países desenvolvidos prejudica a disputa dos produtos das nações menos desenvolvidas no mercado internacional. Segundo recente afirmação da representante oficial do Departamento de Assuntos Econômicos e Sociais da Organização das Nações Unidas (ONU), Michele Billant-Federoff, a eliminação das barreiras e subsídios adotados pelos países ricos no setor de agricultura pode impulsionar o comércio exterior, que tem grande potencial para reduzir a pobreza e levar os países ao crescimento econômico. O Banco Mundial estima que o aumento de apenas 1% da participação dos países em desenvolvimento nas exportações tiraria 128 milhões de pessoas da pobreza.
Dos 850 milhões de hectares disponíveis para se plantar, menos de 10% dessa área são utilizadas. “Além das potencialidades agrícolas, temos o potencial da agroenergia”, disse Guedes, informando os investidores que o Brasil hoje utiliza neste setor apenas 6 a 6,5 milhões de hectares, produzindo 20 milhões de toneladas de açúcar e neste ano 17 bilhões de litros de álcool, sendo metade dessa área para a produção de açúcar e metade para o álcool (3 milhões de hectares cada). “O nosso desejo é que haja grandes produtores de etanol no mundo para que o produto possa se transformar numa commodity”. O ex-ministro citou também o biodiesel, afirmando que o país possui uma diversidade muito grande de espécies vegetais, cerca de 17, que estão sendo pesquisadas pela Embrapa para a produção do combustível e com o aumento da tecnologia nos processos será possível dobrar o atual volume. Logo, a área pode ser menor para alcançar essa mesma meta através da tecnologia. De acordo com Guedes, em 2008 a meta no país será de misturar 2% de biodiesel no diesel e em 2013, 5%. Outra riqueza mencionada pelo ex-ministro é a pecuária. O Brasil tem o maior rebanho bovino comercial do mundo, com aproximadamente 204 milhões de cabeças numa área de 220 milhões de hectares de pastagem. Guedes ressaltou que apesar de o Japão ser o maior comprador de carne de frango e derivados do país, não importa carne bovina brasileira, em função do rígido controle sanitário japonês. Por isso o ministro em sua recente viagem ao Japão, convidou as autoridades daquele país para conhecer o sistema de fiscalização sanitária brasileiro. Ele lembrou que em fevereiro o Comitê Científico da Organização Mundial de Saúde Animal aprovou o pleito brasileiro para que o estado de Santa Catarina seja reconhecido como livre de febre aftosa sem vacinação.
Antes da exposição do ex-ministro, o presidente Makoto Tanaka, em seu discurso de saudação ao visitante, agradeceu pela presença do ex-ministro no evento e diz ter impressionado com o brilhantismo das suas palestras, durante a 12ª reunião do Comitê de Cooperação Econômica Brasil-Japão, realizada em São Paulo, em 6 de março, e, logo posteriormente, na recepção aos membros da comitiva do Nippon Keidanren em Brasília.
Viagem a países asiáticos
Guedes Pinto, ainda como ministro, liderou uma comitiva brasileira em viagem ao Japão, Indonésia e Cingapura, entre os dias 9 a 20 março último. Acompanhado de técnicos do ministério e de empresários dos setores sucroalcooleiro e de carnes suína e bovina, ele manteve encontros no Japão com autoridades governamentais e empresariais daquele país para tratar de biocombustíveis, liberação de carnes suínas e bovinas in natura originárias de Santa Catarina e também discutir cooperação bilateral do ponto de vista ambiental. Participou de feiras e eventos importantes para a promoção do agronegócio e do biocombustível nacional.
De acordo com o Ministério da Agricultura, uma lei japonesa aprovada há três anos, poderá permitir a adição de 3% de etanol à gasolina e caso isto venha a se concretizar, o mercado japonês poderá absorver 1,8 bilhão de litros de etanol, o que corresponde a cerca de 10% da produção nacional.
Guedes Pinto e comitiva também foram ao Makuhari Messe, na província de Chiba, para participar da Foodex Japan 2007, a maior feira de alimentos e bebidas da Ásia. O Brasil teve um stand no evento.
Perfil – Luís Carlos Guedes Pinto é engenheiro agrônomo graduado pela Escola Superior de Agricultura “Luiz de Queiroz” da Universidade de São Paulo em 1965, tendo recebido o Prêmio “Edições Melhoramentos” como melhor aluno da turma no conjunto de disciplinas relativas à agricultura. Doutorou-se pela mesma Escola em 1973 e fez estudos de pós-doutorado na Universidade de Córdoba (Espanha), em 1991. Natural de Vera Cruz (SP), é casado com Luzia Alice Conejo Guedes Pinto, tem três filhos e três netos. Livre docente em 1979, professor-adjunto em 1987 e professor-titular de Economia Agrícola em 1993 da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Além de professor da Unicamp de 1983 a 2003, foi docente na Pontifícia Universidade Católica de Campinas (1966/1969) e na Universidade de Brasília (1976/1982). Foi pró-reitor de Desenvolvimento Universitário da Unicamp de 1998 a 2001. Publicou dezenas de artigos, diversos capítulos de livros e proferiu centenas de conferências e palestras no país e no exterior sobre temas relativos à política agrícola e questão agrária, área de sua especialização. Além disso, orientou diversas dissertações e teses de mestrado e doutorado. Recebeu o Prêmio Jabuti (1994) como co-autor do livro “Introdução à Engenharia Agrícola”; a bolsa de Reconhecimento Acadêmico “Zeferino Vaz” (1993) em virtude de suas atividades de ensino e pesquisa no Instituto de Economia da Unicamp e a Medalha do Mérito Científico e Tecnológico concedida pelo Governo do Estado de São Paulo, pelos relevantes serviços prestados à agricultura brasileira (2001). Luís Carlos Guedes Pinto trabalhou em vários órgãos do setor público estadual e federal. Na Secretaria da Agricultura do Estado de São Paulo foi, no final da década de 60 e início da de 70, membro do Grupo de Implantação do Sistema de Planejamento da Assistência Técnica, chefe da Seção de Organização e Promoção Rural e assessor de Planejamento em Assistência Técnica à Agricultura. Na década de 80, foi coordenador de Planejamento, chefe de Gabinete do secretário e posteriormente secretário da Agricultura (1983). Foi também diretor da Companhia de Entrepostos e Armazéns Gerais de São Paulo – Ceagesp (1984/1987). Foi diretor (1988/1990) e presidente (1995/1996) da Associação de Docentes da Unicamp. Também foi sócio-fundador, diretor e presidente da Associação Brasileira de Reforma Agrária – ABRA (1983/1996), membro do Conselho Curador e do Conselho Fiscal da Fundação Instituto de Terras do Estado de São Paulo – Itesp (1999/2003) e do Conselho Curador da Fundação Sistema Estadual de Análise de Dados – Seade do Estado de São Paulo (1999/2003). No Governo Federal foi assessor do Ministro da Agricultura (1972/1973), membro do Grupo de Implantação da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) e chefe da Assessoria Técnica e do gabinete do presidente da mesma Empresa (1973/1982). Em Campinas (SP) foi presidente do Conselho de Administração da Ceasa – Central de Abastecimento (1989/1992). Foi presidente da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), vinculada ao Ministério da Agricultura (Mapa), de janeiro de 2003 a dezembro de 2004, e secretário-executivo do Mapa de dezembro de 2004 a julho de 2006. Foi presidente dos Conselhos de Administração das seguintes empresas: Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), Companhia de Entrepostos e Armazéns Gerais de São Paulo (Ceagesp), Centrais de Abastecimento de Minas Gerais (Ceasa/MG), Companhia de Armazéns e Silos do Estado de Minas Gerais (Casemg) e Companhia Brasileira de Participação Agroindustrial (Brasagro).

Luís Carlos Guedes Pinto (Foto: Rubens Ito / CCIJB).
Rubens Ito – CCIJB – 13/04/2007





