O risco como aliado

Se há alguma coisa que os produtores de açúcar e álcool apreenderam a fazer nos últimos dez anos foi caminhar com as próprias pernas. O processo de desregulamentação ensinou muitas lições e trouxe resultados fantásticos. O primeiro: o setor aprendeu que é competitivo. Mais: é sustentável, e esta sustentabilidade significa também procurar se superar sempre. 

O começo da desregulamentação no final dos anos 1990 foi difícil, com ajustes duros. Naquela época, o horizonte era sombrio: preços baixos, queda do consumo de hidratado diante do sucateamento da frota de carro a álcool. A primeira mudança positiva foi o ganho de eficiência do próprio setor, que soube abrir e conquistar mercados. A segunda foi o lançamento da tecnologia flex, que deu novo fôlego ao álcool combustível em meio à alta do preço do petróleo. 

Independentemente dos altos e baixos das cotações do petróleo no mercado internacional, o etanol passou a ser visto como uma alternativa real à substituição parcial da gasolina em muitos países. Os Estados Unidos, às voltas com problemas de contaminação do lençol freático com o MTBE – oxigenante derivado do petróleo –, registraram aumento significativo da produção de álcool de milho, com direito a propostas de mais recursos para a pesquisa de álcool de celulose. A União Européia, por sua vez, tem se mostrado mais ambiciosa no uso de biocombustíveis, enquanto países emergentes, como Índia, China, Tailândia, entre outros, avançam em seus programas de mistura de etanol na gasolina.

Outro fator que incentiva a produção de álcool é o problema das mudanças climáticas, provocado principalmente pela queima de combustíveis fósseis. A pressão popular tende a crescer em escala mundial, até porque se trata de um problema planetário. 

E os produtores brasileiros de açúcar e álcool estão atentos para todas essas questões. E tem investido e vai continuar a investir pesado no aumento da produção de etanol combustível, contemplando, sempre em primeiro lugar, o mercado interno, uma vez que a demanda pelo flex superou os 70% do mercado de veículos novos em 2006. Não temos a ilusão de que o Brasil abastecerá o mundo de etanol – e é por isso que defendemos qualquer iniciativa que aumente a produção em outros países. Quanto mais, melhor. O setor acredita no etanol como o combustível do século XXI, o que tem levado a investimentos de quase US$ 15 bilhões até a safra 2012/13 para aumentar a produção dos atuais 425 milhões de toneladas de cana para 694 milhões de toneladas. É arriscado investir tanto num produto sujeito a oscilações bruscas de preço? Pode ser, mas o setor também aprendeu que um bom negócio sempre terá consumidores – e interessados em investimentos.

 
Eduardo Pereira de CarvalhoEduardo Pereira de Carvalho é presidente da UNICA – União da Indústria de Cana-de-Açúcar.

(foto: Rubens Ito / CCIJB)