O Brasil não será a Arábia Saudita do etanol, produto que precisa ter sua produção, consumo e comércio difundidos no mundo para poder se tornar uma commodity global. Mas isso não significa cruzar os braços: é preciso tirar proveito – e um bom proveito – dos nossos mais de 30 anos de experiência com álcool combustível e firmar posição como fornecedor confiável neste mercado.
O setor produtivo do açúcar e do álcool precisa de uma diretriz, de um plano de vôo, definindo prioridades com os olhos bem abertos para as oportunidades que se delineiam neste mundo de petróleo caro e escasso.
Três pontos precisam ser tratados com prioridade, já que serão cruciais para o futuro do setor: demanda, competitividade e sustentabilidade. No caso da demanda interna, é prioridade buscar a redução da volatilidade de preços, que prejudica tanto o setor produtivo como o consumidor; estimular a bioeletricidade, que pode, em condições favoráveis, gerar energia elétrica equivalente a duas usinas de Itaipu, com um potencial de produção de mais 20 mil megawatts em 2020, graças ao uso de caldeiras de alta pressão.
No caso do mercado externo, a principal tarefa do setor produtivo do açúcar e do álcool é combater o protecionismo. A segunda é fazer um trabalho de esclarecimento para derrubar mitos que distorcem a realidade – e o mercado.
Em relação ao protecionismo, é preciso trabalhar a favor das negociações multilaterais de comércio, da Rodada de Doha e os acordos regionais bilaterais, principalmente com os Estados Unidos e a União Européia. Não podemos esquecer ainda que graças ao Órgão de Soluções de Controvérsias da Organização Mundial do Comércio foi possível ao Brasil, Austrália e Tailândia o questionamento aos subsídios à exportação de açúcar concedidos pela União Européia.
O mesmo protecionismo que faz do açúcar o produto agrícola mais protegido do mercado internacional também dificulta o comércio do etanol, em seu caminho para se transformar em commodity internacional. Os interessados na mistura de combustíveis renováveis, como Estados Unidos e Europa, o fizeram, entre outros motivos, para ajudar os seus próprios produtores rurais, mesmo que as matérias-primas disponíveis não sejam as mais indicadas. O milho, o trigo e a beterraba não têm condições de competir com o etanol de cana, assim como o biodiesel de óleo de colza não é páreo para o óleo de palma e de soja.
A bioenergia, que se desenvolve melhor nos trópicos, poderá representar uma fonte de riqueza para os países em desenvolvimento, enquanto a tecnologia de etanol de celulose não fica pronta.
A produção de etanol a partir de lignocelulose, que vem recebendo grandes investimentos – só nos Estados Unidos serão US$ 1,6 bilhão nos próximos dez anos –, merece atenção especial do setor sucroalcooleiro, pois representa a próxima fase do etanol. E o setor no Brasil já sai com vantagem, uma vez que a matéria-prima está disponível na própria usina, como é o caso do bagaço, ou no campo, como é o caso da palha resultante do fim da queima controlada. Para avançar, o setor precisa investir pesado em parceiras com institutos de pesquisa, como o Centro de Tecnologia Canavieira, por exemplo.
Mas isso não basta. Também é necessário conquistar corações e mentes mundo afora, esclarecendo dúvidas e derrubando mitos – como a de que a bioenergia concorre com a agricultura de alimentos. Com esse propósito a Unica pretende abrir representações Em Washington (EUA), Bruxelas (Bélgica) e na Ásia (Japão, Índia e China), regiões em que a indústria brasileira tem interesse em ver o consumo de etanol se ampliar. É preciso agir agora, porque o futuro que esperamos realmente está ao nosso alcance.
Marcos S. Jank é presidente da UNICA – União da Indústria de Cana-de-Açúcar.
(foto: Divulgação)