Mercosul avançou pouco, mas aproximação com países em desenvolvimento foi positiva

 

Brasília, 27/12/2007 – A integração regional andou bem no que diz respeito à economia, no entanto poderia ter caminhado muito mais em termos políticos, não fossem os conflitos de interesses dos países da região. Esse é um dos pontos que o consultor da Rede Brasileira pela Integração dos Povos (Rebrip), Ademar Mineiro, ressalta como marcante na política externa brasileira em 2007.

“Como o que prevalece são os interesses nacionais, sem uma visão mais geral do que seria integração, você tem um monte de trombadas que são determinadas muitas vezes pelos próprios interesses nacionais que estão em discussão”, diz, lembrando o caso ainda não resolvido do impasse na construção de fábricas de celulose no rio Uruguai, fronteira entre Uruguai e Argentina, e mesmo as incertezas da reforma constitucional da Bolívia.

Mineiro destaca o Brasil como um dos maiores interessados e ganhadores com a integração, particularmente por ser a principal economia da região.

“Você tem o investimento de empresas brasileiras em vários países da região, a integração da infra-estrutura física de transportes, de energia, tudo isso de muito interesse do Brasil, tem o BNDES [Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social] que financia expansão de empresas brasileira na região, então isso vai andando”, afirmou, em entrevista à Agência Brasil.

Para o professor de História Contemporânea da Universidade Federal Fluminense (UFF), Daniel Aarão Reis Filho, é necessário que o Brasil tenha uma visão de grandeza em relação aos vizinhos, no sentido de não reproduzir relações de decisões unilaterais.

Ele também elogia a posição de diálogo do país com Bolívia e Venezuela, “que me parecem envolvidas numa aventura reformista radical, nacionalista radical, mas embora não compartilhando essas políticas, o governo tem sabido encontrar termos de diálogo, de conciliação, de convivência”.

Outro ponto que os dois estudiosos apontam como positivos na política externa brasileira é a aproximação com outros países subdesenvolvidos do Hemisfério Sul. Para Mineiro, essa tendência traz vantagens, como se aproximar de países que têm um quadro e uma agenda mais próxima da brasileira.

“A grande vantagem dessa movimentação no plano internacional foi recolocar uma agenda sobre modelo de desenvolvimento no quadro internacional e mostrar que existem países outros que têm afinidades nessa discussão”, afirmou.

Daniel Aarão concorda que é uma atitude importante da política externa brasileira. Ele classifica como “uma excelente orientação estratégica” o Brasil se aproximar de países como a África do Sul, a China, a Índia, o México e mesmo a Rússia, já no Hemisfério Norte. No entanto, ele ressalta que não se pode tratar esse tipo de ação pensando no curto prazo.

“Evidentemente que cada país desses tem suas próprias tradições, sua maneira própria de ver, seus interesses e seria muito simplismo imaginar que a gente vai fazer progressos, que o governo brasileiro possa fazer progressos muito rápidos e muito essenciais nessa direção”, afirmou.

Mesmo assim ele diz que é muito bom se o Brasil conseguir estabelecer pontes sólidas com esses países. “Se nós conseguirmos estabelecer ali bases mínimas de interesses comuns, isso pode ter um reflexo muito interessante do ponto de vista das negociações globais com os centros capitalistas avançados”, disse.

Nesse sentido, o professor acredita que falta ao Brasil conhecer melhor os parceiros em potencial, para ter condições de formular propostas concretas de integração, em termos de trocas econômicas e, principalmente, trocas culturais.

“Eu acho que no nosso país temos uma carência muito fundamental ainda de grupos de estudos sistematicamente voltados para a discussão a respeito da história e das tradições dos parceiros potenciais, até dos nossos vizinhos mais próximos”, concluiu.

 

 

 

 

Agência Brasil – Ana Luiza Zenker