No ritual da passagem da infância para a vida adulta, no universo masculino, em algum momento da adolescência, diz-se que o antigo menino a caminho de se tornar uma pessoa imbuída de maiores responsabilidades, passa a “usar calça comprida”, em substituição aos bermudões da primeira adolescência. O Brasil, nesse sentido, é um país que parece por vezes hesitar em assumir sua condição de adulto e “vestir calça comprida” no cenário internacional. Quer ser grande potência, mas não gosta de abandonar certas práticas próprias de quem ainda não se graduou como país maduro. Quer imitar a China, sem assumir alguns dos compromissos que isso implica. Faz alarde de certos avanços ligados à estabilização e ao fato de estar se tornando um país “normal” depois de décadas de confusão macroeconômica, mas para certas negociações internacionais usa argumentos próprios de um país frágil e indefeso. Aspira a ser reconhecido pelos outros como um líder, mas freqüentemente se nega a arcar com os custos disso. É muito eficiente na defesa (por exemplo, quando os EUA quiseram antecipar a ALCA), mas pouco preciso quando se trata de definir “o que é que o Brasil quer”. Pretende que o resto do mundo se abra para os seus produtos, mas gosta de protecionismo. Resiste ao ostensivo convite de ingressar na OCDE, porque teme perder uma suposta liderança terceiro-mundista. Almeja, enfim, os bônus de ser grande, sem os ônus que isso gera. Talvez a qualificação de “medroso” seja algo forte, mas certamente o país merece o qualificativo de ser um “gigante hesitante”. O que o Brasil quer ser na vida, afinal?
O Brasil, sem dúvida, deu passos importantes no sentido de se tornar um país mais moderno. A estabilização foi um passo decisivo desse processo. Antes disso, já tinha deixado de ser um dos países mais fechados do mundo com a abertura econômica de 1990. O começo de ordenamento das até então caóticas finanças públicas foi também um marco importante na tarefa de passar a ser um país mais respeitado no universo das nações. Sendo dificilmente capturada pelos indicadores econômicos de alta freqüência, a produtividade tem crescido gradualmente. É um processo não facilmente perceptível no momento em que ocorre, mas apenas tempos depois. Ele resulta de uma dinâmica cumulativa de avanços que, paradoxalmente, convivem com profundas ineficiências, decorrentes da histórica falta de senso de urgência típica de países emergentes com trajetórias políticas complexas. Muitas das transformações que se observam cotidianamente na economia brasileira são caudatárias de um amadurecimento macroeconômico e institucional, em um país que, embora aos tropeços e de forma algo desorganizada, construiu um padrão de desenvolvimento que o coloca entre as 10 economias mais fortes do mundo.
Por uma combinação feliz de circunstâncias, um conjunto de fenômenos verificados na economia internacional nos últimos anos beneficiou o país, cabendo esperar que muitos deles continuem vigentes ainda por um bom número de anos: a emergência de China e Índia como “sorvedores” de matérias primas em que, por acaso, o Brasil se destaca, gerou uma pressão de alta expressiva sobre o preço das “commodities”; o “boom” da demanda mundial permitiu uma forte expansão das exportações; a combinação de riscos geopolíticos e preços do petróleo em alta aguçou a procura por fontes alternativas de energia, exatamente quando o país começava a desenvolver com maior intensidade a utilização do biocombustível; e, como se não bastasse, a descoberta de reservas expressivas de petróleo e gás acabou por descortinar um horizonte que se afigura como bastante promissor. O desafio que se tem pela frente é como proceder da melhor forma para que, nos próximos 10 a 15 anos, o país dê um verdadeiro salto à frente, de modo a que o Brasil de 2020 guarde poucas semelhanças, do ponto de vista econômico e social, com a economia e o país do começo da década. Que cartas deve o Brasil jogar? Como ele deve se posicionar no tabuleiro das grandes negociações internacionais? Que política econômica deve marcar essa estratégia? A melhor aposta parece ser a de “dobrar a aposta” na integração com a economia mundial.
Brasil ganhou na loteria porque é o país do mundo com a maior diversidade de commodities (entre metálicas e agrícolas). Com as novas locomotivas na economia mundial (emergentes representam 44% do PIB mundial), lideradas pela China, houve uma gigantesca melhora de relações de troca que gerou uma renda (prêmio de loteria) que foi gasto ou investido para ” comprar ” a dívida externa, para “comprar” a sensação térmica agradável de um país com maior renda, para “comprar” a expansão do crédito bancário, e, até mesmo para “ comprar” o grau de investimento.
O ciclo atual de commodities é realmente duradouro porque tem a ver com a urbanização da China e com a incorporação de centenas de milhões de pessoas dos países emergentes ao mercado de consumo de massas. Mas um dia este ciclo terminará. Acreditamos que o Brasil ainda tem muito prêmio para ganhar e resta saber o que fará com o prêmio agora: vai investir no futuro ou consumir pura e simplesmente em políticas curto-prazistas. O seu principal desafio é o de transformar a bonança externa em investimento para o futuro.
O Brasil encontra-se em uma espécie de “encruzilhada”, que combina elementos de uma economia moderna com outros relativamente arcaicos. Temos empresas que competem em condições de igualdade com as melhores do mundo, convivendo com outros sinais claros de ineficiência. Indivíduos que se adaptaram plenamente aos ditames da globalização, ao mesmo tempo em que uma parte do país parece viver nos anos 50. Uma dívida pública declinante, mas com um padrão de gasto que deixa muito a desejar. O novo e o velho, enfim, convivendo lado a lado.
Com todos os erros, omissões e apagões, o país teve até aqui 15 anos consecutivos de políticas econômicas que poderíamos classificar como “decentes”, onde, liquidamente, se acertou muito mais do que se errou. Consideramos esse período como de avanços cumulativos e incrementais. É importante frisar que não foi só o Brasil que ganhou na loteria. Dezenas de outros países emergentes também ganharam. Cada um usou o prêmio da sua maneira. Alguns desperdiçaram quase tudo com populismo. Certamente não foi o caso do Brasil.
Brasil teve e continuará tendo melhoras incrementais decorrentes de avanços institucionais e democrátícos. Mas dado o tamanho do prêmio de loteria que ganhamos e ainda vamos ganhar, avanços meramente incrementais são um verdadeiro desperdício. Ou seja, o País tem que ir muito além do incremental, muito além do cumulativo. Tem que fazer um efetivo catching up (grande salto de qualidade, recuperando o tempo perdido) que envolva reformas realmente ousadas que pensem essencialmente no futuro quando o “mundo sinocêntrico” já estiver andando de lado.
Octavio de Barros, diretor de Pesquisa Macroeconômica do Bradesco – Website: www.bradesco.com.br
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