Reformas são o grande desafio para desenvolvimento das nações, diz Heizo Takenaka

O ex-ministro da economia do Japão, Heizo Takenaka comentou, durante sua participação, na Confraternização dos Associados em São Paulo, que o grande desafio hoje dos países é a consecução das reformas estruturantes. Segundo ele, ainda há no mundo países que são fechados economicamente, mas que na conjuntura atual, este modelo prejudica o seu desenvolvimento. Ao seu ver, esse deve ser, a partir de agora, a bandeira de luta e não mais o isolamento, mal que naturalmente está sendo banido no planeta. Realizado no dia 13 de junho, o evento foi uma parceria da Câmara com a Associação Brasil-Japão de Pesquisadores (SBPN) e contou com a presença de mais de 250 pessoas.

Mudar o modelo econômico, segundo Heizo Takenaka, significa abrir o mercado do país e ser livre, incluindo a consecução das privatizações. “Com o fim da guerra fria em 1989 e a chegada da globalização, todos os países entraram para a economia de mercado, incluindo a Rússia, China, Vietnã, entre outros. São 6,6 bilhões de pessoas na economia de mercado ante 3,5 bilhões. Houve a criação de mercado e de oportunidades para as pessoas. Os países do BRICs nasceram por causa desse aumento de mercado. A concorrência também duplicou. Brasil e Japão foram lançados a tal contexto, exceto Coréia do Norte e Cuba. Todos em competição extrema. Houve mudança radical da estrutura tecnológica através da internet. Estamos no mundo digital. Com as reformas estruturantes que o Japão colocou em prática em 2005, o país cresce firmemente. Quando não há reformas num país, a economia não cresce”.

De acordo com o ex-ministro, o mundo passa atualmente por três importantes transformações:

1. Fast & slow
“O rápido engole o lento. Quem não for rápido não consegue posição de destaque. O Brasil foi um dos primeiros a liberalizar sua economia. Apesar de o país possuir vários problemas como de segurança, distribuição de renda etc., tem uma economia livre. Observa-se que as maiores rendas per capita no mundo são predominantemente de países muito pequenos em extensão territorial como Luxemburgo (1º), Noruega (2º), Suíça, Cingapura. Países pequenos não sobrevivem sem abrir a sua economia. Com a abertura econômica, eles ganharam na superioridade competitiva. Por outro lado, o Japão protege as minorias, como agricultores, rizicultores. Isto é extremamente improdutivo, inibindo o crescimento do PIB. O Brasil, cada vez mais aberto, é amplamente valorizado no cenário internacional. O Japão enfrenta esse desafio. A China vai enfrentar no futuro”.

2. Globalização e o meio ambiente
“Nova concorrência levou a uma nova percepção. O planeta tem limites: crise dos alimentos e commodities, aquecimento global. Países do BRICs com alto desenvolvimento podem levar a uma falta de recursos como energia no mundo. Isto vai aumentar os preços dos recursos naturais, alimentos, entre outros. Na China, com elevada poluição atmosférica, regiões com grande população produzem riquezas, mas mostra os limites dos recursos que o planeta tem. Uma resposta a esses problemas seriam as tecnologias inovadoras, drásticas, sem sacrificar a qualidade de vida da humanidade. E neste cenário, o Japão é extremamente importante, por possuir espetacular tecnologia ambiental. Os gases de efeito estufa provocando o aquecimento global. O Japão possui tecnologia ambiental extremamente avançada. O Japão emite metade de gases estufa (CO2) que os EUA e a Europa emitem para produzir a mesma riqueza e 1/9 do que a China emite. Por conta do protocolo de Kyoto há esforço para reduzir 5% no mundo, mas isso é improvável. Apenas como um cálculo teórico, se todos os países tivessem a mesma tecnologia que o Japão possui, as emissões cairiam 67% no mundo. O Japão tem enorme responsabilidade. Isso entra a tecnologia digital. Com a TV digital, Brasil e Japão estarão na vanguarda da tecnologia e podem contribuir também na área da tecnologia ambiental”.

3. Importante papel do soft power
“Há duas formas de poder no mundo, o hard power, poder duro, poderio econômico e militar, exercício direto através de ferramentas como a coerção, a indução, a intimidação e a proteção – poder para criar e destruir (EUA), ou o poder somente para criar (Brasil, Japão). Já o soft power, poder brando, tem o poder de atrair, ser atraente para as pessoas, ganhar corações e mentes na era da informação global. Brasil e Japão não têm soft power, ao contrário dos EUA que atuam no mundo todo com esse importante recurso”.

Segundo Heizo Takenaka, em países com grande extensão territorial, é o poder dos líderes que vai propiciar as mudanças. Num país como o Brasil com 190 milhões de habitantes, haverá a necessidade do surgimento de um líder, democrata, eleito pelo povo, que proponha suas idéias e a população decida por meio de referendo. “Este líder deve propiciar e conseguir persuadir a população. Ele pode conseguir o sucesso econômico do país. Para tanto, ele precisa ter confiança para fazer as reformas necessárias. Apesar de os líderes sempre enfrentarem problemas, por exemplo, na redação de uma lei, ele precisa notar os detalhes do texto, quando importantes. A estratégia mora nos detalhes. São os detalhes dos líderes no mundo globalizado, no mundo fast & slow e de recursos limitados”.

Finalizando, destacou também a importância da educação no desenvolvimento dos países, o ex-ministro lembrando de uma célebre frase do fundador da Universidade Keio, Yukichi Fukuzawa: "Não há independência de um país sem a independência de cada pessoa. Um país deve crescer através da educação, dos estudos, e as pessoas devem ter fibra. Um país depende de como cada pessoa atua, age. A única política de um país é a educação".

Perfil – Heizo Takenaka é diretor do Instituto de Pesquisas em Segurança Global da Universidade Keio (Japão), onde é também professor, além de ser consultor para outras instituições acadêmicas e empresas. Foi ministro da Economia do Japão, reformando o sistema financeiro japonês. Seu último cargo político foi como ministro do Interior e Comunicações, responsável pela privatização dos correios do Japão no gabinete do então primeiro-ministro Junichiro Koizumi. Heizo Takenaka freqüentou a Universidade Hitotsubashi, em Tóquio onde estudou com o renomado professor e economista Ichiro Nakayama, graduando-se em Economia em 1973. No mesmo ano em que se formou, Takenaka ingressou no Banco de Desenvolvimento do Japão. Em 1977, foi transferido para o Instituto de Estudos em Investimentos de Capitais deste banco. Em 1981, deixou a instituição para estudar por um ano nas Universidades Harvard e Pensilvânia (EUA), onde pesquisou sobre investimentos de capitais nos EUA. O resultado de sua pesquisa foi o livro Development Studies and Capital Expenditure Economics, publicado em 1984 que ganhou o prêmio “Suntory” de Artes Liberais. Então trabalhou no Ministério das Finanças como pesquisador de fornecimento no período de 1982 a 1987. Finalizou seu doutorado na Universidade de Osaka, lecionou como professor associado na mesma universidade (1987 a 1989) e na Universidade Harvard (1989 a 1990). Na faculdade de Políticas Públicas da Universidade Keio recebeu o benefício de "tenure", concedido a pessoas consideradas “senior” e com grande excelência de desempenho na função, assegurando sua estabilidade profissional. Takenaka foi nomeado pelo primeiro-ministro Junichiro Koizumi ministro de Economia e Política Fiscal em 2001. Nesta função, foi encarregado em reformar o sistema financeiro do país e se tornou uma das vozes mais destacadas no debate então corrente sobre a privatização do Correio do Japão (privatizado em outubro de 2007). O economista foi eleito para uma cadeira na Dieta Nacional do Japão (poder legislativo bicameral do país) em 2004. Depois da esmagadora vitória do Partido Liberal Democrata do Japão (de Koizumi), nas eleições de 2005, Takenaka assumiu seu último cargo como ministro do Interior e Comunicações, encarregado da privatização dos correios do Japão.

 

Heizo Takenaka (fotos: Rubens Ito / CCIJB)

 

Presidente Makoto Tanaka, cônsul-geral do Japão em SP, Masuo Nishibayashi e ex-ministro Heizo Takenaka.

 

Presidente Makoto Tanaka durante discurso de saudação de boas-vindas ao ex-ministro Heizo Takenaka.

 

Makoto Tanaka (presidente da Câmara), Heizo Takenaka (ex-ministro da Economia do Japão), Masuo Nishibayashi (cônsul-geral do Japão em SP) e Sussumu Niyama (presidente da Associação Brasil-Japão de Pesquisadores-SBPN).

 

Mais de 250 pessoas assistiram à palestra do ex-ministro Heizo Takenaka.

 

 Rubens Ito – CCIJB – 13/06/2008