Sob as bênçãos de Zaratustra

Em 2009 o Brasil continuou a azeitar o motor econômico, percorreu bons quilômetros na via social e andou alguns metros na estrada política. As visões sobre a trajetória do País, ao passarem pelo caleidoscópio social, adquirem dimensões diferentes, a partir dos benefícios contabilizados nas planilhas de recursos investidos nos estratos populacionais. Sob o prisma de investimentos na cobertura social, as classes da base da pirâmide foram contempladas com as maiores fatias. São, por isso, as mais satisfeitas. Os efeitos da política de distribuição de renda, mesmo sob claros sinais de viés eleitoreiro-populista, fazem-se ver na inserção de cerca de 20 milhões de pessoas que ascenderam à classe C e, pelos cálculos do governo, de cerca de 30 milhões que deixaram o fundão da miséria absoluta. Esse é o patrimônio mais significativo do governo Lula. A corrida rumo ao progresso leva em conta, ainda, a boa performance do País na curva da crise internacional.

Com a economia sob controle, amplos programas de distribuição de renda, confiança social no governo e sólido sistema financeiro, o País passou a ser ouvido com atenção em palcos internacionais. Exemplo foi o aplaudido discurso de Luiz Inácio na fracassada Conferência sobre Mudança do Clima, em Copenhague. Se o País passou bem em testes das áreas econômica e assistencialista, teve notas insuficientes em setores fundamentais como educação, saúde e segurança pública. As fraudes nos exames do Enem mostram uma pontinha da precariedade do sistema educacional. A estrutura da saúde é plena de imensas carências. E a violência não tem diminuído, apesar do acesso ao consumo de milhões de marginalizados. Diante desse quadro, emerge a pergunta para abrir o novo ano: em que 2010 poderá ser diferente para os brasileiros, além de propiciar o pleito eleitoral que se desenha como um dos mais contundentes de sua História?

Na frente política, o que se pode esperar é uma reversão de expectativas. Reformar a política de modo substantivo é tarefa que leva tempo. Na prática, teremos menos de um semestre legislativo. Em ano eleitoral, o conservadorismo impera em matéria de mudança de padrões. Na esfera econômica, decisões que possam vir de encontro ao interesse dos entes federativos – compressão da cadeia tributária, por exemplo – também se mostram inviáveis. Ninguém quer perder. Já na área social a tendência é de expansão de programas existentes e voltados para melhorar a vida das margens carentes e desapertar o bolso das classes médias. O desafio será combinar política econômica e investimentos na agenda social e, ainda, ajustar o consumo, exacerbado pelo próprio presidente, com ameaça de volta da inflação. O tom do exagero será dado pela corneta populista.

2010 será efervescente. A retórica eleitoral dominará o ano. O Brasil será festejado como potência emergente. O discurso nacional terá maior peso que o discurso regional. Valores inerentes aos contendores serão enaltecidos. Mas as candidaturas se esforçarão para realçar as molduras que as cercam, ou seja, estilos e maneiras de administrar o País. O petismo/lulismo aparecerá como modelo de gestão. A crônica já anunciada é a de que a dinâmica social jamais foi tão intensa. Lula aparecerá como o grande divisor de águas. A polêmica resvalará pelo perigoso terreno do conflito de classes. As conquistas, na visão dos governistas, só foram possíveis porque gestadas pelo PT, sigla comprometida com a revolução socialista. Nesse ponto, a conotação aponta para a luta de classes, de pobres contra ricos, de oprimidos contra opressores, de éticos contra antiéticos. Na maior cara de pau.

Alas petistas tentarão desviar-se dessa abordagem por conveniência eleitoreira. Temem ser rechaçadas por núcleos que representam o pensamento central da sociedade. Mas esse será o pano de fundo a abrigar a retórica. Mesmo distante do ímpeto revolucionário, remanesce a impressão de que Lula compartilha a tese. Conseguiu extrapolar o petismo, assumindo a posição de pater familias, magistrado, figura providencial. Mas, quando necessário, diz-se soldado do partido. Ademais, vez por outra resgata o surrado discurso contra as elites. Há, sim, um acordo tácito para se desdobrar a retórica revolucionária. Nas bordas desse conchavo trafegam movimentos como o MST, braço do PT radical e amparado pelo governo. Para o meio da sociedade a fala é amena. A “revolução” vira “pragmatismo”. Basta anotar Lula recomendando ao partido aliança com um grande empresário – citou José Alencar como exemplo – para conquistar o governo de São Paulo.

Em outra ponta está o PSDB, com a marca social-democrata, desgastada não só porque o partido deixou de se atualizar, como permitiu a outras siglas se apropriarem de seu dicionário. O centrão social-democrata, que reúne entidades diversas, é uma geleia geral. A credibilidade tucana mantém-se pelo prestígio de seus quadros. É o que explica, por exemplo, a liderança do pré-candidato José Serra em pesquisas eleitorais. Os tucanos, ademais, estão dispersos e tateiam na construção de um discurso nacional. Temas essenciais (a partidarização do Estado, por exemplo) que alimentam sua crítica não motivam as massas, atraindo apenas a simpatia de núcleos que já lhes são fiéis. Nas praças estaduais, alianças e acordos se repartirão entre as conveniências regionais e nacionais. Mas os pleitos locais tendem a se impregnar do clima geral. A situação do País dará o norte aos discursos tanto de candidatos da situação como da oposição.

Não se espere nada de novo. O que vislumbramos é a figura de Zaratustra, ao abrir os olhos após sete dias enfermo na caverna. Ali ele ouviu de seus animais: “És o mestre do eterno retorno; ensinas que há um ano descomunal de grande, que deve, qual ampulheta, virar-se e revirar-se sem cessar, a fim de começar e acabar de escoar-se; de tal sorte que esses anos todos são iguais a si mesmos, nas coisas maiores e nas coisas menores.” Entramos em 2010 sob as bênçãos do profeta de Nietzsche.

 

Gaudêncio Torquato, jornalista, professor titular da USP, é consultor político e de comunicação.

(Publicado no O Estado de S. Paulo, de domingo, 3/01/2010, pág A2)

 

 

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Gaudêncio Torquato (foto: Divulgação)