O vácuo no centro do problema

Todos os anos, em meados de outubro a mídia abre espaço para mensagens enaltecedoras à figura do professor, assinadas por órgãos do governo e por algumas outras instituições. Essa homenagem rarefeita e quase burocrática é a forma mais utilizada para comemorar o Dia do Professor, salvo algumas elogiáveis exceções, entre as quais se inscreve a entrega do título Professor Emérito e do troféu Guerreiro da Educação a uma personalidade inconteste do mundo acadêmico, numa iniciativa conjunta CIEE e Estadão, que homenagearam na edição do ano passado, o cirurgião Adib Jatene, mestre das várias gerações de médicos que transformaram o Brasil em referência mundial em cardiologia.

Mesmo admitindo o desgaste da frase “todos os dias deveriam ser Dia do Professor”, é impossível deixar de reconhecer a boa dose de verdade embutida nesse chavão. Mas, passada a semana de 15 de outubro, os nossos mestres são retirados do pedestal e voltam a ser revestidos do papel de um dos maiores responsáveis pelas graves deficiências da educação brasileira. Como toda generalização, entretanto, esta também se esvazia por não levar em conta contrastes perceptíveis com a simples observação da realidade. Se há professores descompromissados com sua missão – como, aliás, acontece em todas as áreas de atuação humana –, existem muitos outros que compreendem o seu valor, vencem obstáculos de todos conhecidos e, em salutares exemplos de superação, revelam-se profissionais dignos da carreira que escolheram.

O reconhecimento das diferenças, entretanto, não exime a sociedade de duas grandes dívidas, uma para com os professores e outra para com os alunos. O Brasil deve aos professores a recondução aos patamares de dignidade que a profissão ocupou no passado – o que é meramente uma questão de justiça, pois, se cobramos deles a responsabilidade pela construção da sociedade do futuro, nada mais correto do que concedermos a eles o merecido apoio no presente. Aos alunos, deve um ensino de qualidade, adequado às exigências do século 21.

Esse é o núcleo da questão e nele impera um grande vácuo, resultado da crônica ausência de políticas públicas que façam da educação uma consistente prioridade nacional, livre de soluções pontuais, tantas vezes mal planejadas e pior executadas. Ao lado de aspectos igualmente importantes, desponta a questão do professor que, na nossa visão, não deve ser dissociada do critério do mérito, até mesmo para fazer justiça aos milhões de mestres que, por esse Brasil afora, se conservam fiéis à sua vocação, apesar das dificuldades diuturnas. A esses, sim, devem ser concedidos salários à altura não só de suas necessidades, mas principalmente da contribuição que prestam ao País. Merecem também oportunidades de formação para desenvolvimento pessoal e profissional, além de perspectivas de crescimento na carreira, mediante avaliações sérias e afastadas de politiquices.

Os indicadores, tanto os nacionais quanto os internacionais, mostram duas faces de uma mesma moeda, quando se trata da educação. Na vertente quantidade, merecem comemoração conquistas, como a praticamente universalização do acesso ao ensino fundamental e o aumento de vagas nas universidades, com destaque para a rede federal. Já na vertente qualidade, na qual as conquistas são mais difíceis de atingir, o Brasil continua a amargar posições preocupantes, que sinalizam tanto para a ainda insuficiente escolaridade média do brasileiro (anos de estudo formal) e, o que é pior, para graves deficiências de aprendizado, com alunos que saem do ensino básico, diplomam-se em faculdade e chegam ao mercado de trabalho na condição de analfabetos funcionais, revelando-se inaptos a ler, escrever e fazer cálculos relativamente simples, apesar dos certificados que enfeitam seus currículos. E, o que é mais triste, em forte descompasso com as exigências da moderna e complexa realidade corporativa. Estão aí para eliminar, se ainda existem, dúvidas sobre a urgência de se repensar a educação a lamentável reprovação em massa nos obrigatórios exames da Ordem dos Advogados do Brasil ou a crescente pressão para a institucionalizar exame similar para os novos médicos, com resultados que não será difícil prever…   

Na economia, o País avança a ritmo razoável, mas continua patinando no social. E só sairá desse atoleiro quando decidir enfrentar para valer a maior e mais perversa das desigualdades que penalizam tantos milhões de brasileiros: a desigualdade educacional, que anula os direitos e quase impossibilita o cumprimento dos deveres da cidadania. Não há dúvida sobre o ponto de partida para concretizar essa ambiciosa proposta, que exigirá o empenho de toda a sociedade: a revolução deverá começar pelas faculdades de Educação, que deverão preparar professores para ministrar um ensino alinhado com o complexo cenário da modernidade, marcado pelos acelerados avanços científico-tecnológicos desta era do conhecimento e pelas profundas mudanças no campo do trabalho, tanto no formato das relações colaborador-empresa, quanto no acirramento da competição pelas oportunidades de ocupação, com a crescente valorização de competências, posturas e resultados só obtidos por profissionais adequadamente qualificados, num processo que começa já nos primeiros anos de escola.      

Neste ano, o eleitor terá mais uma oportunidade de renovar o cenário político. Porém, não bastará apenas pautar seu voto pela ética e moralidade. Será preciso realizar um esforço de cidadania, sensibilizando o maior número possível de votantes para um fato: apenas a pressão das urnas poderá impulsionar o Brasil para um novo tempo e isso passa, necessariamente, pela valorização da educação.

 

Ruy Martins Altenfelder Silva é presidente do Conselho de Administração do Centro de Integração Empresa-Escola (CIEE).

 

 

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Ruy Martins Altenfelder Silva (foto: Divulgação)