No Comentário, vamos ouvir o professor Satoshi Nakano, da Universidade Hitotsubashi. Ele é especialista na história diplomática dos Estados Unidos, das Filipinas e do Japão. Nakano vai nos falar sobre a visita do casal imperial japonês às Filipinas.
Ele diz: “Acredito que a visita vai ser uma oportunidade muito importante para refletir sobre as conquistas em termos de reconciliação entre as Filipinas e o Japão. Os dois países eram inimigos durante a Segunda Guerra Mundial, e na época as Filipinas eram colônia dos Estados Unidos. Durante o conflito, o arquipélago foi palco de duas grandes batalhas entre as forças americanas e japonesas. Segundo o governo das Filipinas, mais de 1 milhão e 100 mil vidas foram perdidas. Depois do fim da guerra, demorou uma década para que os dois países reatassem seus laços diplomáticos, através de um acordo de compensação assinado e ratificado em 1956. Contudo, com o passar do tempo, o clima entre os dois países no pós-guerra passou de animosidade para uma relação amistosa. Trata-se definitivamente de uma incrível história de sucesso da diplomacia do Japão depois da Segunda Guerra Mundial.
Este sucesso pode ser verificado em dois níveis: entre estados e nas relações entre os cidadãos dos dois países. A nível diplomático, pedidos públicos de desculpas e compensações no pós-guerra foram feitos sem quaisquer entraves.
Não resta dúvida de que o Japão foi o agressor durante a guerra, enquanto as Filipinas foram vítimas inocentes. Esta situação levou o lado japonês a se desculpar, enquanto o lado filipino ficou encarregado do perdão e da generosidade. Os julgamentos de crimes de guerra japoneses realizados pelo governo filipino deram à população filipina a oportunidade de punir os japoneses. Os dois países também concluíram um acordo de compensação, que oficialmente coloca o Japão em posição de se desculpar e oferecer compensação. Esta relação permitiu que ambos os países evitassem disputas históricas. Podemos até mesmo dizer que as relações entre as Filipinas e o Japão são caracterizadas por um ciclo “virtuoso” de desculpas e perdão.
O que é impressionante é que este “ciclo virtuoso” existe também no nível das relações entre os dois povos. Japoneses que vão às Filipinas para homenagear os mortos na guerra e seus entes queridos se relacionam com filipinos locais. Estas trocas entre cidadãos começaram em meados da década de 1960 e continuam até hoje. Comunidades locais nas Filipinas são receptivas na maior parte dos casos e aceitam os visitantes japoneses, demonstrando perdão e incríveis níveis de hospitalidade. Por sua vez, os visitantes japoneses são naturalmente gratos e tentam mostrar sua gratidão oferecendo presentes, apoio para as comunidades locais tal como a doação de escolas primárias, entre outros gestos.
Tenho que dizer que existe um outro lado desta bela história de reconciliação. O “ciclo virtuoso” de desculpas e perdão funcionou bem para aqueles que sabem o que aconteceu durante a guerra. Mas as gerações mais jovens, especialmente japoneses que receberam uma educação limitada sobre o conflito, não aceitam este ciclo. Contudo, a longo prazo, apagar a memória da guerra pode representar uma perda da compreensão mútua sobre o passado.
Acredito que a visita do Imperador e da Imperatriz às Filipinas vai nos dar uma grande oportunidade para progredir e obter um nível mais profundo e sustentável de reconciliação entre os dois povos.
Para mim, a colaboração no estudo da história vai ajudar ainda mais na reconciliação. Acredito que estes estudos serão muito produtivos, especialmente visto que tanto japoneses quanto filipinos se veem com bons olhos. Esforços para conscientizar mais o público japonês sobre a guerra deveriam ser feitos. O diálogo e a memória do passado, não o silêncio, são fatores que contribuem para um futuro melhor para todos nós.” (da NHK World)
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