A cana de açúcar, de etanol e de eletricidade: uma commodity global

Nas últimas três décadas, a indústria da cana-de-açúcar recebeu fortes investimentos em ciência e tecnologia, tanto do setor público quanto do privado. Hoje, a cana-de-açúcar é o insumo básico não apenas para o açúcar, como para uma variedade incrível de produtos com valor agregado, particularmente o etanol que abastece nossos automóveis e ajuda a romper o domínio dos combustíveis fósseis sobre nossa sociedade.

Agora, a cana-de-açúcar está prestes a dar mais um salto, desta vez para oferecer ao mundo uma fonte dupla de energia limpa e renovável. Além do açúcar e do etanol, a cana já está fornecendo eletricidade, em um momento em que essa eletricidade é urgentemente necessária para impulsionar o crescimento econômico do Brasil.

O etanol brasileiro produzido da cana não é apenas economicamente rentável como também ambientalmente consistente. Devido a ganhos de eficiência, o preço atual do etanol no Brasil é de apenas 30% do que era há três décadas, quando País tomou a decisão de utilizar o etanol em grande escala.

Hoje, o etanol brasileiro é competitivo com a gasolina com o preço do petróleo a 40 dólares o barril. Isso torna o etanol viável mesmo sem subsídios governamentais.

Além do etanol, a bioeletricidade também está sendo produzida a partir da cana-de-açúcar, solução que pode muito bem deflagrar outra revolução, na mesma escala do etanol. A bioeletricidade é produzida a partir da queima de subprodutos da cana – o bagaço e a palha – em caldeiras. A energia gerada nesse processo não só faz com que nossas usinas sejam 100% auto-suficientes, como também permite que elas forneçam excedentes de eletricidade para as redes nacionais de distribuição.

Até recentemente, cerca de dois-terços do potencial energético da cana, contidos no bagaço e na palha, não eram utilizados. Mas isto está mudando de forma dramática.

Usinas de açúcar e álcool no Brasil já têm potencial para gerar 1.800 megawatts médios em excedentes de eletricidade, o que equivalente a 3% do total necessário para abastecer o Brasil. Com a intensificação do uso da biomassa que vem da cana, e a utilização de caldeiras de alta eficiência, estima-se que a capacidade de geração do setor pode atingir até 15.000 megawatts médios até 2020. Isso seria suficiente para fornecer até 15% das necessidades do País, ou o equivalente ao consumo de países inteiros, como Suécia ou Holanda.

Por todos esses motivos, nós acreditamos que o etanol da cana-de-açúcar está nitidamente à frente dos produzidos a partir de outros insumos, seja em termos de balanço energético, eficiência ambiental, produtividade e custo-benefício. É por isso que a sua produção e o uso devem ser ampliados e seu comércio internacional estimulado.

O etanol de cana e a bioeletricidade não são, meramente, soluções brasileiras. Mais de 100 países, inclusive os Estados Unidos, cultivam cana-de-açúcar ao redor do mundo, e a maioria são países emergentes em regiões tropicais e subtropicais. A adoção por esses países do etanol de cana em vez da gasolina aumentaria sua independência energética e daria mais segurança energética para países que importam etanol, porque o número de fornecedores seria ampliado e diversificado.

Nesse cenário, 100 países em desenvolvimento poderiam fornecer biocombustíveis para o mundo, ao invés dos 20 países produtores de petróleo que fazem isso hoje, a maioria deles localizados em regiões conturbadas. A cana-de-açúcar, portanto, pode fazer uma contribuição significativa para o desenvolvimento desses países, ao transformar muitos deles em produtores e exportadores de etanol.

O etanol de cana-de-açúcar preenche todos os requisitos para se tornar uma commodity global, mas para que isso aconteça, países desenvolvidos precisam colocar de lado a lógica distorcida que prevalece hoje – uma lógica que aplica impostos sobre biocombustíveis, mas permite que combustíveis fósseis transitem livremente ao redor do mundo, sem obstáculos tarifários ou outras barreiras comerciais.

 

Marcos S. JankMarcos Sawaya Jank é presidente da UNICA – União da Indústria de Cana-de-Açúcar.
Artigo original publicado no site da UNICA www.unica.com.br

(foto: Divulgação)