Todos querem saber o que está acontecendo: quem não tem onde plantar quer terra; quem não tem onde morar quer teto; quem não tem companhia estupra: quem não tem o que comer saqueia; quem não tem o que fazer pinta e borda; quem não tem saúde quer médico, e assim por diante. Vivemos momentos de perplexidade, expressos através da inversão de valores e da explosão do comportamento na forma da violência como rotina.
Castro Alves invocaria Deus para perguntar se é verdade tanto horror perante os céus. Mas ele se referia aos escravos negros, que atravessavam o Atlântico, acorrentados e açoitados, não aos escravos brancos hoje igualmente atingidos ora pelo vil açoite dos cassetetes da polícia, ora pelos tiros de jagunços a serviço dos modernos coronéis.
Não é necessário invocar o economês para perceber que as injustiças sociais são fruto da má distribuição da renda e do fenômeno da globalização, que prioriza as liberdades ao mesmo tempo em que condena os mais fracos à miséria absoluta.
Os momentos de perplexidade são interpretados à luz do novo milênio, que também se transforma em temas de simpósios, títulos de livros, peças de teatro, e principalmente em mote para vendas ou estratégia de marketing. Invoca-se até o fim do mundo para vender mais, estimulando-se um consumismo sem precedentes, ao vivo e em todos os matizes.
De onde vem a violência que explode em todas as cidades e aterroriza os cidadãos ditos pacatos e normais? Por acaso ela não existia antes, em qualquer parte do mundo, em qualquer civilização? Será que ela não está apenas sendo mais combatida e divulgada, como nunca o foi, chegando a uma espécie de vulgarização?
De vez em quando ouvem-se vozes saudosistas que invocam a volta dos militares ao Poder. Outras querem a redução da idade penal como panacéia. Todos gritam, numa babel de reivindicações também sem precedentes, como o consumismo. Isso não é bom? Não é melhor do que ficar apenas rastejando à sombra do novo milênio ou simplesmente olhando o tempo passar?
Como todo mundo, estou perplexo. Para minhas crônicas, escolho temas que vão da revolta à solidão, do desencanto à beleza dos concertos, da infelicidade de viver tempos tão temerosos ao gosto de morar numa cidade como São Paulo, apesar de todos os defeitos que lhe queiram nomear. O jeito de viver faz a diferença. Viver tem remédio!
Flávio Tiné, jornalista e autor do livro de crônicas “Viver Tem Remédio”.
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(foto: Divulgação)