Comentário: Objetivos dos EUA em negociações econômicas com o Japão

Terça-feira realiza-se em Tóquio a primeira rodada de negociações econômicas entre o Japão e os Estados Unidos. Neste Comentário, fala sobre objetivos do governo americano nas tratativas Asuka Matsumoto, pesquisadora convidada da Universidade Johns Hopkins, que é especializada em política dos Estados Unidos.

“No seu primeiro dia na Presidência, Donald Trump assinou decreto que afasta os Estados Unidos da Parceria Transpacífica. Em substituição ao acordo, ele deve estar à procura de novos mecanismos comerciais.

Um dos possíveis alvos dos negociadores americanos é o mercado de veículos. Trump reclamou do passo lento das exportações de carros dos Estados Unidos para o Japão — panorama que descreveu como injusto. Na realidade o Japão eliminou as tarifas alfandegárias que impunha sobre veículos provenientes dos Estados Unidos. Além disso, normas de segurança, frequentemente vistas como obstáculos não tarifários, foram enfraquecidas em consequência das negociações da Parceria Transpacífica. Convém lembrar, porém, que, no Japão, as vias públicas são estreitas e os motoristas empenham-se em economizar combustível em razão do alto custo da gasolina. Prevalecem, assim, tipos diferentes de carros, mas as fabricantes de veículos americanas pouco fazem para adaptar-se ao mercado japonês. Acredito que caiba aos Estados Unidos a culpa pelas escassas exportações.

E o governo americano parece estar ciente disso. A indústria japonesa de veículos não é mencionada na Agenda Política do Comércio do Presidente para 2017, que foi apresentada no mês passado ao Congresso. Mesmo assim, Trump ainda pôde fazer exigências audaciosas, tendo por alvo o mercado automotivo do Japão para impressionar a classe trabalhadora branca dos Estados Unidos — a base de suporte do seu governo. Os agricultores e pecuaristas americanos fazem crescente pressão sobre o Congresso porque tinham altas esperanças de que a Parceria Transpacífica aumentaria as exportações para o Japão. Pelo acordo, o governo japonês havia aceitado baixar suas tarifas alfandegárias sobre carne bovina dos atuais 38,5% para 9% em um período de 15 anos. Essa redução não será feita se a retirada americana ocorrer como planejado. Assim, os pecuaristas dos Estados Unidos aguardam renegociações. Prevejo que as autoridades americanas poderão exigir reduções tarifárias equivalentes nestas renegociações. Há uma chance de que peçam até mesmo mais.

E havia antes o ponto de vista de que Washington pressionaria Tóquio a fazer concessões. A situação mudou, no entanto, com as recentes iniciativas americanas em relação ao programa de desenvolvimento nuclear da Coreia do Norte. Pode não ser do interesse de Washington pressionar demais Tóquio e prejudicar os laços bilaterais.

Em negociações, o governo Trump tem a tendência de fazer inicialmente exigências audaciosas e de diminuir a sua intensidade à medida que avançam as conversas. É importante que as autoridades japonesas não tenham reações exageradas.” (da NHK World)