Nakano: Estado fará o papel de indutor do desenvolvimento

O resgate do papel do Estado como indutor do desenvolvimento é uma das consequências que a crise global trouxe para evitar o colapso na economia, decretando de fato o fim da era liberalizante e a volta do protecionismo, com isso, iniciando um novo ciclo com a presença ativa do Estado na economia. A afirmação foi feita pelo economista Yoshiaki Nakano, durante o simpósio Brasil-Japão 2009, que aconteceu no dia 28 de setembro, em São Paulo.

Segundo ele, um dos traços comuns das estratégias de desenvolvimento, que vêm sendo delineadas no Brasil, reside na transição de uma política econômica com foco só na estabilidade para a estabilidade e o crescimento.

“Houve deslocamento das expectativas, a percepção de que existem setores capazes de gerar massivos programas de investimentos muito grandes que poderão puxar o crescimento da economia brasileira por décadas (infraestrutura, habitação, geração de energia, educação, tecnologia, entre outros). Sob a perspectiva de longo prazo, estamos iniciando a transição de uma economia emergente para uma economia desenvolvida, e não mais pensar como uma economia pobre e dependente”, disse.

Isso, segundo o economista, representa uma inversão das prioridades que vinham pautando a agenda econômica nacional ao longo dos anos 90. A aposta na ativação da atividade econômica através do fortalecimento dos setores produtivos, com ênfase no mercado interno e na geração de empregos, configura-se como um contraponto ao que Nakano chamou de “idolatria ao mercado financeiro” e “a tese do estado mínimo” – dois dos principais fundamentos da gestão neoliberal.

“Com a crise da dívida externa e adoção do Consenso de Washington a dinâmica da economia brasileira se deslocava para o exterior, com paradas súbitas do fluxo de capitais e ciclos de recuperação da crise. Com a recente crise financeira, o dinamismo do mercado doméstico passa a ser condição essencial para o desenvolvimento sustentado dos emergentes. Cinco anos de crescimento mais acelerado criou um novo momento para o Brasil. Construímos convergências, consensos e prioridades. Está havendo um círculo virtuoso com incorporação de quase 100 milhões de pessoas no mercado de consumo de massa. As empresas respondem aumentando a produtividade, criamos um mecanismo contínuo de ampliação do mercado e dos investimentos. A mudança demográfica e o crescimento geraram novo dinamismo no mercado de trabalho, com geração de empregos formais e com salários mais elevados, permitindo a ampliação do mercado. O Brasil em plena crise vai gerar de 500 a 600 mil empregos”.

A crise financeira global de 2008

Ex-secretário da Fazenda do Estado de São Paulo e atual diretor da Escola de Economia da Fundação Getúlio Vargas, Yoshiaki Nakano diz que apesar do início de recuperação da atividade econômica, a crise não terminou e prevê longa duração. Ao seu ver, a economia global pode mergulhar novamente em uma recessão, levando o atual ciclo a assumir a forma de W – queda inicial, recuperação neste segundo semestre e nova queda mais à frente. “De abril de 2008 até o segundo trimestre de 2009 a atual crise foi tão grave quanto a grande depressão da década de 30. O socorro aos bancos e as respostas tanto de política monetária como fiscal foram muito mais fortes e rápidas do que na década de 30. A partir do segundo trimestre deste ano houve uma melhora nas expectativas e o início de recuperação na Alemanha, França e Japão, estabilização nos Estados Unidos e retomada de crescimento nos países emergentes. O problema do endividamento excessivo e ativos tóxicos não foram ainda resolvidos. Com o socorro dos bancos (risco moral) e injeção monumental de liquidez, Wall Street voltou a operar com as mesmas práticas que geraram a crise, com riscos de retorno das mini-bolhas nas bolsas dos emergentes, commodities, petróleo, moedas-commodities (real). As mesmas práticas para ganhar dinheiro voltaram, a Goldman Sachs, com grandes lucros, havendo enormes incentivos para se especular, alocando recursos para as bolsas emergentes (petróleo subindo para 70 dólares o barril) – Goldman Sachs aposta para 90. Injetaram recursos em algumas moedas como nas moedas-commodities como o real. Os preços dos ativos sobem. Está ocorrendo mini-bolhas até um pânico (W). O real está bastante apreciado. Ao retirar recursos, real sobe (o real se valoriza quando cai o investimento direto, aquele dito de “melhor qualidade”, e aumenta a participação do investimento em carteira, este tipicamente volátil por ser de horizonte mais curto). Parar de injetar recursos na bolsa, a economia cai”.

A debacle econômica global, deflagrada em setembro de 2008, diz Nakano, aconteceu com excesso de crédito financeiro sem controle algum. Grandes bancos com operações fora do balanço. “A capacidade de criar créditos, moedas de forma totalmente descontrolada. Isso tem que acabar. Após isso vamos ter um novo pensamento. A Grã-Bretanha já anunciou que o Consenso de Washington que acha que o mercado é capaz de resolver o problema acabou. Os governos intervieram recentemente. A nova expectativa, novo paradigma será o controle de CO2 e geração de energia limpa e renovável, prioridade número um dos Estadios Unidos, questão de segurança nacional. Obama colocou 150 bilhões de dólares na geração de energia renovável”.

Nova governança global

Após a crise financeira, o economista prevê no cenário global o fim da hegemonia absoluta do principal país do mundo, os Estados Unidos, que “continuam mais fortes, mas não absoluto”. “Com a eleição de Obama, houve mudança do povo internamente, a substituição do G-7 por G-20 caminhando para um mundo multi-polar e com maior espaço e autonomia para estados nacionais emergentes traçarem seu futuro. A ressurreição do FMI, com mais participação dos emergentes e mais próximo ao modelo de Keynes. O fim da hegemonia e estabilidade sobre o dólar como moeda-reserva internacional única e transição para sistema de múltiplas moedas e fortalecimento das moedas-commodities (inclusive o real)”.

As novas dinâmicas da economia global

Com a crise, o economista diz que “houve ajustes no desequilíbrio global e declínio dos Estados Unidos como consumidor e importador em última instância: fim do Breton Woods II. O dinamismo do mercado doméstico passou a ser condição essencial para o desenvolvimento sustentado dos emergentes. O sucesso da China e da Índia e a difusão do modelo asiático de “catch-up” que está chegando ao Brasil (BRICs etc.). A tendência secular de aumento do preço de commodities, criando oportunidades de crescimento para alguns países e maldição a outros”.

O sistema global pós-crise

No sistema global pós-crise, segundo o economista, “a nova regulação do sistema financeiro trará o fim da liquidez internacional excessiva e taxa real de juros de longo prazo mais elevada. Redução do fluxo internacional de captação e com isso a redução na fonte básica de instabilidade das economias emergentes: “Tobin Tax” na agenda. O fim do modelo “vôo da galinha” com “booms” de consumo”.

Principais desafios

O economista enumera os principais desafios na transição do país para economia desenvolvida, apontando algumas ferramentas indispensáveis à sobrevivência das empresas e para o crescimento e dinamismo da economia brasileira, como o aumento da competividade e da poupança doméstica. “Deslocar para dentro do país essa transição, com a geração de mecanismo autosustentado; mecanismo interno de ampliação do mercado e aumento contínuo da produtividade; a fronteira tecnológica para construir uma estrutura produtiva diversificada e competitiva; e geração de poupança para autofinanciar os investimentos produtivos, poupança própria para crescer”.

Como fronteira tecnológica cita “ampliar abertura da economia, aumentar e diversificar as exportações, aumentar os gastos em Pesquisa & Desenvolvimento (P&D) e taxa de câmbio estável e competitiva”.

Sobre poupança doméstica propõe “aumentar a poupança pública com redução nos gastos correntes, aumentar a poupança privada com a aceleração do crescimento, elevação da produtividade e da margem de lucro, a necessidade de taxa de câmbio mais competitiva e estável e juros baixos para aumentar a margem de lucro”.

Novos paradigmas

Yoshiaki Nakano diz estar confiante com o futuro do país. “Estou muito confiante com o futuro do país. Novo paradigma tecnológico deve surgir nos Estados Unidos. Mas o Brasil sabidamente tem algumas grandes vantagens nesta área como a tecnologia da cana-de-açúcar, óleo diesel a partir da cana, vasta extensão territorial ainda não cultivada, sem falar no pré-sal”, finalizou.

Rubens Ito – CCIJB

 

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Yoshiaki Nakano (fotos: Rubens Ito / CCIJB)

 

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Além do público em geral, o simpósio contou também com a participação de membros-associados à Câmara.

 

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Yoshiaki Nakano diz que um dos traços comuns das estratégias de desenvolvimento, que vêm sendo traçadas no Brasil, reside na transição de uma política econômica com foco só na estabilidade para a estabilidade e o crescimento.

 

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O professor Nakano diz que o resgate do papel do Estado como indutor do desenvolvimento é uma das consequências que a crise financeira global trouxe.