Tecnologia estimula revolução na mídia

Antonio Rosa Neto
Acabo de retornar do evento NAB – National Association Broadcasters, realizado em abril em Las Vegas e considerado como a maior feira de rádio e TV do mundo. Nele, pude identificar mais uma vez, o quanto transformaremos a sociedade do futuro. Vejam só a programação que foi apresentada no Las Vegas Convention Center; Satélite/Telecomunicações, Rádio/Áudio, TV, Vídeo e Filme, Multimídia World (Internet, streaming e New Media) e Mobile Media. Os maiores estandes eram do Microsoft, com o WindowMedia, o RealPlayer e a Apple. Até aí, tudo bem, mas para quem acompanha a feira há anos, sabe que ela nunca esteve tão próxima da tecnologia como agora. Era um evento focado em válvula para rádio e tv, transmissores e antenas análogos, enfim, coisas da velha economia.
O que ninguém imaginava era que a turma da Internet acabaria por invadir a feira da mídia tradicional. Nossos valores estão sendo modificados e o conhecimento anterior passa por grandes revisões. É absolutamente fundamental, neste cenário de mudanças, notar que os meios de comunicação sofrerão fantásticas transformações.
Na abertura do evento ocorreu uma palestra, no mínimo hilária, com o tema “Next Generation Technologies and Future of Communications” ele disseram que os Broadcasters olhavam para Internet assim como Aladim olhava para lâmpada mágica; Tudo seguia bem e os negócios se transformavam em ouro. Mas recentemente, eles começaram a ver muito mais fumaça do que gênio. “Os Broadcasters acharam um gênio na garrafa do futuro da comunicação”, disse o moderador Peggy Miles, presidente e fundador da Intervox Communications de Washington, D.C. A grande questão será: O que eles irão desejar e enviar aos telespectadores e ouvintes fará sentido? Serão distribuidores de conteúdo para os diversos “devices” (aparelhos)? Controlarão a auto-demanda das programações? Criarão conteúdos em DTV/HDTV? Ou o modelo de negócio irá sofrer uma transição indo para os PVR- Personal Vídeo Recorder (exemplo do tivo, replaytv, ultimate e mystro), pré-pagos, pós-pagos, assinatura, personalização de conteúdo, programação advertorial (anúncios disfarçados de programas)? Miles enfatizou inclusive que a batalha da participação de mercado, da participação na mente, da participação dos “devices”, conteúdo atrativo será decidido por tantos provedores que ficará difícil fazer previsões entre as empresas de mídia, telefonia, cabo, satélite, etc.
Na verdade, o que vimos na NAB foi uma atraente convergência da mídia com a tecnologia, que já está provocando uma definitiva mudança no posicionamento das empresas de comunicação. A interatividade – latente necessidade em se receber aquilo que você quer, na hora em que se deseja – está passando da ficção à realidade.
Pude exercitar inclusive este conceito, quando escrevi como co-autor, a convite da CEPAL – Comitê Econômico para América Latina e Caribe, órgão pertencente a ONU – Organização das Nações Unidas, o capítulo de mídia do livro "Building an Information Society: a Latin American and Caribbean perspective" , publicado pela ONU no final de Janeiro de 2003 na República Dominicana.
No livro, destaquei que é extremamente necessário acompanharmos e estudarmos as mudanças que ocorreram nas comunicações no mundo todo e em destaque, nos EUA, país líder em mídia e tecnologia. Podemos concluir, que face à convergência, as empresas globais em mídia serão viáveis e certamente atuarão com ênfase também na América Latina. Nesta nova realidade, caracterizados por empresas globais, que atuavam apenas nos setores de produtos e serviços, como CocaCola, Ford, VW, Philips, Toshiba, McDonald’s, CitiBank, etc, agora chegam também à mídia, quer seja pela Internet, como a CNN.com.br, Wall Street Journal Américas, etc, ou pelos canais internacionais de TV, gerados na sua origem, mas que aprenderam a falar português, como AXN, Bloomberg, Cartoon, Discovery, ESPN, Fox, HBO, Nickelodeon, Sony, TNT, Warner, USA, entre outros.
O primeiro passo para entendermos as novidades tecnológicas é encará-las. Afinal, não dá mais para subestimar o futuro interativo que aí está. Já não se trata de ficção, estamos vendo surgimento de uma nova cultura, com características muito próprias, que já está alterando a maneira de se fazer e receber comunicação. A new-media, com a personalização, permitirá enfim, a otimização da comunicação, tornando possível saber-se exatamente para quem a mensagem estará sendo dirigida. Ou seja: você terá condições de atingir eficazmente seu alvo e, mais ainda; venderá produtos, serviços, educação, etc.
As novidades não vão param mais; um excelente exemplo é o avanço das emissoras de Rádio por satélite, lançado nos Estados Unidos em 2002. O XM-Radio, que é uma associação entre a Clear Channel, maior operadora de emissoras de rádio do país, a DirecTV e a General Motors, viabilizou mais de 100 canais de áudio no automóvel ou em casa. Eles cobram uma taxa de US$ 9,99 por mês de cada assinante. Surgiu também um novo concorrente, a Sirius Radio que oferece outros 100 canais de Rádio. Mas se você achando confuso é porque ainda não conhece o projeto da empresa KVH americana (www.kvh.com), que vai transmitir por satélite mais de 300 canais de televisão, diretamente para os automóveis, vans, ônibus, etc. Mas notem que eles afirmam, que no futuro, vão oferecer também Internet em banda-larga. Não é o máximo? A propósito, várias marcas de automóveis nos EUA, incluíram no painel de seus modelos originais, os aparelhos de rádio por satélite.
A televisão como mídia interativa já está dando seus primeiros passos, basta observarmos os canais GloboNews e Fox News, da Sky, que já permitem a interatividade, evidente que ainda é limitado a texto, mas já é possível imaginarmos as vantagens do t-commerce, que é a comercialização de produtos e serviços na TV. Clicar em um comercial, interagir e comprar no exato momento em que se assiste a um programa, não é mais tendência, será a palavra de ordem.
Sistemas conhecidos como PVR- Personal Vídeo Recorder, como o TiVo, ReplayTV e UltimateTV, citados no início, já atingiram mais de um milhão de domicílios americanos no ano passado, com eles, mediante a um simples comando, podemos gravar mais de 80 horas da programação de todas emissoras, funcionam como se fossem vídeo-cassetes inteligentes. Depois, assistimos aos programas no formato DVD e ainda podemos excluir todos os anúncios publicitários. Não é a toa que a principal empresa de pesquisa do setor, a Forrester, afirmou que será o produto mais vendido no mundo.
No mês passado, também fomos surpreendidos pela Anatel, a Superintendência de Serviços de Comunicação de Massa (SCM) da Agência Nacional de Telecomunicações, autorizou a TV Filme Sistemas Ltda. a executar o Serviço de Distribuição de Sinais Multiponto Multicanal (MMDS) em Belo Horizonte utilizando os canais E2, E3, E4, F2, F4 e G1. O objetivo é avaliar o novo sistema de transmissão e recepção de sinais, utilizando a bidirecionalidade (transmissão e recepção) desses canais. Serão testados equipamentos de transmissão e recepção das tecnologias W-CDMA e OFDM/QAM. Estaria a Anatel testando a total convergência da mídia com a tecnologia no Brasil?
Antonio Rosa Neto, presidente da Dainet Consultoria de Mídia, presidente do GPR – Grupo dos Profissionais do Rádio, presidente da Fundação Kunito Miyasaka, vice-presidente da AMI – Associação de Mídia Interativa, diretor da Aliança Cultural Brasil Japão, diretor da ABEMD – Associação Brasileira de Marketing Direto, autor do Livro "Atração Global" – A Convergência da Mídia e Tecnologia, publicado pela Makron Books e co-autor do livro "Building an Information Society: a Latin American and Caribbean Perspective" publicado pela ONU – CEPAL, em fevereiro de 2003.
E-mail: arosa@dainet.com.br





