Acordo de Livre Comércio: estratégias de ações foram discutidas em reunião

Acordo de Livre Comércio: estratégias de ações foram discutidas em reunião

Vista geral do evento

O presidente Makoto Tanaka e o presidente da Comissão de Coordenação Geral, Tsunekiyo Endo estiveram reunidos com os presidentes dos Departamentos Setoriais da Câmara, no dia 06 de fevereiro, no auditório da Yasuda Seguros, em São Paulo.

Denominada de Reunião dos Presidentes dos Departamentos Setoriais, a abertura oficial desse evento foi feita pelo presidente Makoto Tanaka. Logo em seguida, houve relatos dos presidentes dos Departamentos Setoriais sobre as atividades desenvolvidas por cada departamento no semestre que se encerrou e as expectativas desses setores para o semestre seguinte.

Atualmente, a Câmara possui 11 Departamentos Setoriais, que são: Consultoria e Assessoria, Financeiro, Comércio Exterior, Eletroeletrônico, Metal Mecânica, Automotivo, Fiação e Tecelagem, Gêneros Alimentícios, Produtos Químicos, Transportes e Serviços e Construção e Imobiliária.

Os Departamentos Setoriais estavam assim representados na reunião:
. Automotivo: Koichi Kondo (Moto Honda da Amazônia Ltda.)
. Construção e Imobiliária: Kuniyasu Shimizu (Takenaka do Brasil Construtora Ltda.)
. Consultoria e Assessoria: Etsuji Nishikawa (Pessoa Física)
. Comércio Exterior: Takezo Yanagida (Japan Trade Center, São Paulo – Jetro)
. Eletroeletrônico: Masahiro Seyama (Panasonic do Brasil Ltda.)
. Financeiro: Koji Yamada (Mizuho Corporate Bank, Ltd.) representando Toshifumi Murata (Banco Bradesco S/A.)
. Fiação e Tecelagem: Akio Kiguchi (Unitika do Brasil Indústria Têxtil Ltda.)
. Gêneros Alimentícios: Hideaki Watanabe (Indústria Agrícola Tozan Ltda.)
. Metal Mecânica: Shuichiro Sugimura (NSK Brasil Ltda.)
. Produtos Químicos: Yukio Arai (Hokko do Brasil Indústria Química e Agropecuária Ltda.)
. Transportes e Serviços: Mikio Yokoyama (Japan Airlines Company, Ltd.).

Além dos nomes citados, fizeram também parte da mesa o cônsul-geral do Japão em São Paulo, Kiyotaka Akasaka e o vice-presidente da Comissão de Coordenação Geral, Naoyoshi Akamine.

O público que assistiu ao evento foi de cerca de 100 pessoas.

Durante o encontro, que já é uma tradição no calendário de eventos da Câmara, foram debatidas várias questões inerentes ao desempenho das empresas filiadas por cada setor.

Dentro dessa linha de reflexão houve debate sobre os temas "Perspectivas e reflexos de cada setor com a política econômica do Governo Lula" e "Perspectivas e necessidade do Acordo de Livre Comércio entre o Brasil e o Japão".

Pela primeira vez, o evento foi aberto ao público em geral, que pôde formular perguntas aos componentes da mesa. Com entrada franca, a reunião foi realizada em japonês, com tradução simultânea para o português, a cargo do tradutor oficial juramentado, Alberto Suzuki.

A maioria dos setores mostrou como obstáculos no semestre passado para o desempenho das empresas a instabilidade do câmbio, a correção dos preços devido à alta do dólar perante o real (importação de insumos) e à inflação, a alta dos juros e o controle de custos.

Segundo afirmações do presidente Nacional do Partido dos Trabalhadores, José Genoíno, o governo Lula manterá uma política econômica ortodoxa, sendo que a postura será cumprir os contratos e manter compromissos no combate à inflação, responsabilidade na gestão fiscal, busca de superávits fiscais e estabilização do câmbio.

As medidas do governo no sentido de buscar o equilíbrio das contas, cumprir as metas do Programa de Ajuste Fiscal e de executar as reformas da previdência, tributária, trabalhista entre outros, poderão restabelecer o clima de confiança entre os investidores, principalmente os da comunidade internacional, que têm manifestado interesse em desenvolver projetos no Brasil. Assim, o Estado exercendo o seu verdadeiro papel, que é o de indutor do desenvolvimento e promotor do bem-estar social, através da inclusão social.

Para o governo, o maior desafio, hoje, é impedir que a inflação cresça. Uma guerra no Golfo Pérsico seria um complicador nessa tarefa.

Um outro tema relevante discutido na reunião foi estudar e traçar estratégias sobre a viabilidade de um possível Acordo de Livre Comércio entre o Brasil e o Japão.

É oportuno lembrar que o consultor-empresarial, ex-chairman da Companhia Vale do Rio Doce e ex-ministro, Eliezer Batista da Silva, um dos maiores estrategistas macroeconômicos do Brasil, na ocasião de sua palestra na Câmara, em 08 de março de 2002, sugeriu a criação do acordo de livre comércio entre os dois países, que poderá ampliar significativamente o mercado de produtos brasileiros, tanto manufaturados como agroindustriais no Japão.

Em sua viagem ao Japão, em novembro de 2001, o então ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, Sérgio Amaral, deu início às negociações com aquele país para a criação de um acordo de livre comércio com o Mercosul. O tratado envolveria as áreas de comércio, indústria, agricultura e meio ambiente do Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai. O objetivo principal seria criar bases para um amplo acordo de exportações. Segundo Amaral, o Japão tem grandes interesses na compra do etanol (álcool combustível) brasileiro para a utilização em seus veículos. O ministro lembrou que o uso do álcool pode ajudar o Japão a reduzir a emissão de gases poluentes na atmosfera, conforme determina o Protocolo de Kyoto.

O embaixador Sérgio Amaral, naquela visita ao país do Sol Nascente, ressaltou que, no encontro com o ministro japonês da Economia, Takeo Hiranuma, foi abordada a questão das negociações Mercosul-União Européia e Mercosul-Alca. O ministro brasileiro advertiu os japoneses que, se essas negociações prosperarem, haveria um "desvio de comércio" em favor da Europa e dos Estados Unidos, em detrimento do Japão. Para tanto, ele disse durante a visita, que o Brasil e o Japão devem pensar em aumentar e consolidar os investimentos japoneses no Brasil e as relações de comércio bilaterais.

A mesma opinião foi manifestada durante a reunião pelo presidente da Honda e vice-presidente da Câmara, Koichi Kondo, para quem, em nível automotivo – setor do qual preside na entidade -, sem o acordo Brasil-Japão, as montadoras japonesas instaladas no Brasil, perderão competitividade com a formação da Alca (Área de Livre Comércio das Américas) e o acordo de livre comércio entre o Mercosul e a União Européia (UE). Pois as tarifas de importação do Brasil, a partir do momento em que o livre comércio for adotado nessas duas zonas, começarão, para automóveis, com alíquota de 10% (35% atuais) e decrescer até chegar a 0% em sete anos e para autopeças de 15% para 0%. Enquanto que, sem o acordo bilateral entre brasileiros e japoneses, as tarifas impostas para as importações vindas do Japão ficariam em torno de 35% para automóveis e 15% para autopeças, prejudicando também os exportadores daquele país. "Precisamos acelerar a implementação desse acordo. Devemos sentar à mesa o quanto antes. Devemos movimentar e procurar uma solução o mais rápido possível", alertou Kondo.

Essa amarga experiência foi vivenciada por Kazuhiro Ito, atual presidente da Cerâmica e Velas de Ignição NGK do Brasil Ltda., que antes de vir ao Brasil, foi presidente da NGK do México.

Ele avalia que sem esse acordo entre o Brasil e o Japão as empresas japonesas no Brasil irão amargar prejuízos como os que ocorreram no México, com as tarifas reduzidas nas importações provenientes dos países do Nafta e depois com os países da União Européia, que firmaram o livre comércio com os mexicanos. "A Câmara de Comércio Japonesa do México começou a sentir. O fato é que não havia inicialmente sensação de grande risco. Passaram-se seis a sete anos para discutir o sério problema. Enquanto isso, novos produtos e insumos chegavam dos Estados Unidos e da União Européia com tarifas zero ou reduzidas. E o Japão que não tinha acordo de livre comércio com o México pagou muito por isso" (este acordo está previsto para ser formalizado em meados deste ano). "Necessitamos a presença do governo japonês para as negociações", conclamou.

Outro ponto focado por Koichi Kondo foi o de que as montadoras japonesas no Brasil (Honda e Toyota) estão medindo esforços para aumentar o índice de nacionalização dos automóveis produzidos no país, a fim de evitar as importações. Segundo Kondo, o Sindipeças (Sindicato Nacional da Indústria de Componentes para Veículos Automotores) está se manifestando contrário à implementação da Alca e do Acordo de Livre Comércio entre Mercosul e União Européia, pois as indústrias de autopeças no Brasil ficarão prejudicadas com a implementação dessas zonas de livre comércio.

O cônsul-geral Kiyotaka Akasaka mostrou-se também preocupado com o estágio atual e deu uma resposta concreta aos apelos, principalmente do setor automotivo japonês no Brasil: "Os senhores têm toda a razão. O governo japonês está atrasado em relação à questão. Estou de acordo. Todavia não havia essas vozes entusiásticas e apelativas dos empresários japoneses no México. Espero que esse trabalho possa repercutir rumo à meta da qual eu sou a favor", disse, lembrando da próxima Reunião Conjunta do Comitê de Cooperação Econômica Brasil-Japão, a realizar-se em São Paulo no próximo dia 17 de março, uma iniciativa da CNI – Confederação Nacional da Indústria e da Keidanren – Federação das Organizações Econômicas do Japão, onde um dos assuntos mais aguardados para os debates será sobre a possível formação desse acordo.

Ao finalizar o encontro, o presidente Makoto Tanaka deu suas conclusões sobre a reunião: "Foi uma discussão de opiniões ativas de parte a parte com vários resultados. Houve diversos pontos que poderão ser melhorados nas próximas reuniões", disse.