Por Uma Gestão Lula Coerente

Por Uma Gestão Lula Coerente

Prof. Yuichi Tsukamoto


O início promissor

O início da Gestão Lula tem se mostrado melhor que o esperado, ao menos no que diz respeito ao comportamento das principais variáveis financeiras. O dólar tem caído forte e rapidamente. O indicador de risco-Brasil, embora em patamares ainda elevados, já é metade do que se atingiu poucos meses atrás.

Tudo isso reflete o discurso pró-mercado dos principais membros da equipe econômica, além, é claro, da própria composição dessa equipe, que superou as expectativas quanto à sua experiência e capacitação. Apesar desse início promissor, há razões para acreditar que está longe de garantir que o momento mais agudo da crise de confiança já ficou para trás.

O teste da coerência começa

Há fatores externos e internos que ainda sugerem cautela por parte do presidente Lula e sua equipe. Mais do que isso, tais fatores sugerem que esta melhora recente do humor dos mercados seja aproveitada para consolidar ganhos mais perenes.

Um deles seria acelerar o ritmo das reformas, aproveitando-se também do ainda enorme estoque de capital político do presidente Lula. Rejeitar medidas propostas por seu governo agora seria sobrepor-se à esmagadora vontade popular, bem como por em risco esta ainda recuperação dos ativos brasileiros.

Ocorre, porém, que o próprio presidente parece subestimar a urgência desse processo e o risco de tal janela de oportunidade fechar-se em breve. Não se advoga que reformas como a da previdência social ou a tributária sejam impostas à sociedade sem o mínimo de negociação.

Ocorre, porém, que a negociação poderá abrir espaço para a articulação de interesses contrários a tais reformas e no mínimo impor um atraso na agenda. A idéia, por exemplo, de apresentar em maio uma proposta ao Congresso para a reforma previdenciária, pode dar uma impressão de celeridade.

Tanto por questões políticas como regimentais, o cenário mais positivo remete a votação da matéria pelo Congresso para pelo menos o terceiro trimestre do ano. Até lá, o apoio popular do presidente pode ter declinado (ainda que não inexoravelmente), sobretudo porque sua capacidade em avançar objetivamente em questões como emprego e combate à fome é bastante limitada, como ele mesmo tem se esforçado em dizer.

A série de opiniões emitidas pelo próprio ministro da previdência a respeito de diversos pontos dessa reforma e a definição de que os militares manterão um regime especial de aposentadoria (sem entrarmos no mérito da questão) não apenas reforçam a percepção de que não há um formato coerente que o executivo defenderia. Abre também um perigoso flanco do qual outras importantes e articuladas categorias do serviço público poderão se aproveitar para demandar tratamento privilegiado, o que sem dúvida esvaziaria a tal reforma.

Em outras palavras, talvez fosse mais proveitoso que o executivo arriscasse mais na proposição de uma reforma, apostando no seu poder político para aprová-la mais rapidamente, do que correndo o risco de protelar sua aprovação e perder o melhor momento para fazer isso.

Há também as questões externas, cuja imponderabilidade pede coerência na condução da economia nos próximos meses. A cada vez mais iminente guerra entre EUA e Iraque, por exemplo, pode ter implicações relevantes e, quem sabe duradouras, sobre os preços internacionais do petróleo, o que teria repercussões importantes sobre o ritmo de retomada da economia norte-americana e mundial.

A própria fragilidade ainda manifesta de economias como a dos EUA, da Alemanha e do Japão despertam dúvidas sobre a velocidade e a magnitude da retomada dos fluxos de capitais para os países emergentes em geral e para o Brasil em particular.

Choque de realidade para a América Latina

Há também a potencial instabilidade gerada pelas crises políticas e econômicas que se abatem sobre importantes países da América Latina. Venezuela, enfrentando um clima que flerta com a guerra civil e a Argentina, que em poucos meses elegerá seu novo presidente, podem manter investidores estrangeiros ainda cautelosos no que tange à região como um todo.

Em suma, o início de 2003 tem se mostrado acima das expectativas, mas ainda não permite extrapolações desse movimento recente para o restante do ano. As condições para a retomada de um crescimento mais vigoroso da demanda doméstica continuam distantes. Afinal os juros ainda se encontram em patamares elevados e a renda real disponível dos consumidores segue encolhendo.

Apenas o avanço mais rápido das reformas constitucionais poderá permitir que este começo do ano não se transforme apenas numa promessa não concretizada de um ano melhor. Assim como foram 2001 e 2002…

Yuichi Tsukamoto, conselheiro em Gestão Estratégica e professor de MBA de Marketing Internacional da USP. Foi "visiting scholar" da Wharton School nos EUA.
E-mail: ytsukamoto@uol.com.br