Japão e a Ásia ficaram para trás?

Dois importantes parceiros comerciais na Ásia receberam a visita do presidente Luiz Inácio Lula da Silva no final do mês de maio. Em 2004 o Japão importou US$ 2,7 bilhões e a Coréia US$ 1,4 bilhão. Esses dois países representam, praticamente, o mesmo um mercado para os produtos brasileiros que todos os países da África e mais do que todos os países do Oriente Médio, que no ano de 2004 importaram, respectivamente, US$ 4,2 bilhões e US$ 3,7 bilhões.

No entanto, apesar da importância da Ásia, que é o terceiro destino das exportações comprando 15,1% do total das exportações brasileiras em 2004, ou seja, US$ 14,56 bilhões, a região aparece somente em quinto lugar entre as mais visitadas, com 3,6% das viagens segundo os relatórios de 2003 e 2005 das “Viagens internacionais do presidente da República”. Nota-se uma concentração das viagens para os países das Américas, com 52,8% do total das 56 visitas do presidente a outros países. Isso pode ser explicado pela importância econômica e política dos países dessa região, pois em termos comerciais as Américas representaram 46% do total das exportações brasileiras em 2004. A participação européia com 19,6% das visitas, também pode ser assim explicada, pois representou 28,9% das exportações totais do país em 2004.

No caso dos países americanos e europeus a importância das relações econômicas coincide com o maior número de visitas, mas no caso dos asiáticos não. Considerando-se as visitas realizadas pelo presidente Lula à Índia e à China, a região asiática ficou atrás do continente Africano (16,1%) e do Oriente Médio (8,9%). Além disso, há também o aspecto temporal, a primeira visita do presidente fora do eixo Américas-Europa foi para os países africanos em novembro de 2003 (São Tomé e Príncipe, Angola, Moçambique, Namíbia e África do Sul) e a segunda para países árabes, em dezembro de 2003 (Síria, Líbano, Emirados Árabes Unidos, Egito e Líbia). A primeira vista a Ásia ocorreu somente em maio de 2004, com a ida do presidente à China. E no caso dos outros dois importantes parceiros econômicos da Ásia, Coréia e Japão, somente agora, exatamente um ano depois.

Uma justificativa para as visitas aos países Africanos e do Oriente Médio pode ser fundamentada na proposta da política comercial brasileira de busca de novos mercados. Mas também no caso do Japão e da Coréia do Sul, apesar de haver um histórico de relações econômicas, a participação comercial brasileira é baixa apesar do potencial e, portanto, podem ser considerados novos mercados. E, mesmo com a visita do presidente Lula, não deverá haver grandes novidades no curto prazo tanto em comércio como em investimentos.

No entanto, espera-se que essa viagem possa fazer parte de um processo de revitalização das relações entre países, pois pelo longo tempo de falta de contatos diretos entre os líderes políticos, a troca de visitas já pode ser considerada um primeiro passo de aproximação.

No caso do Japão, como foi dito pelo presidente Lula na visita do primeiro-ministro japonês ao Brasil em setembro de 2004: “a visita do primeiro-ministro Koizumi reforça a confiança no potencial de nossas relações … Estamos resgatando uma parceria prioritária para a política externa de meu governo”.

Daqui para frente não faltam temas de interesses comuns para serem discutidos, tanto no âmbito político como econômico. Por exemplo, Brasil e o Japão, juntamente com a Alemanha e a Índia apresentaram conjuntamente, no último dia um 16 de maio, um projeto de reforma do Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas para ampliação do número de membros permanentes. E, obviamente, são aliados não só na proposição da reforma, mas também são candidatos a membros permanentes do Conselho e devem buscar solidariamente apoio as suas pretensões.

Outro tema para ser desenvolvido é o da criação de um acordo de integração econômica entre os dois países, ou entre o Mercosul e o Japão. O Japão tem desenvolvido uma nova política em relação aos acordos bilaterais, tendo assinado seu primeiro acordo com a Cingapura em 2002, o qual entrou em vigor em janeiro de 2003. O segundo acordo foi assinado com o México em setembro de 2004. Diversos outros acordos estão em andamento e, em maio de 2004, foi levado ao governo japonês pela Nippon Keidanren (Federação das Organizações Econômicas do Japão) o plano para desenvolvimento de um acordo de integração econômica Brasil-Japão. O governo brasileiro dever estar atento para poder fazer avançar essa proposta.

Além desses temas, há ainda o centenário da imigração japonesa ao Brasil, que será comemorado em 2008. Portanto, sendo o país que abriga a maior população de descendentes de japoneses fora do Japão, com cerca de 1,5 milhão de pessoas e que tem mais restaurantes de comida japonesa do que churrascarias na maior cidade do país, São Paulo, não pode perder a oportunidade de aprofundar e aproveitar essas relações bilaterais. Portanto, presidente Lula, como se diz em japonês “gambarê”, traduzindo, “vamos à luta”.

Alexandre Ratsuo Uehara, analista Político-Econômico da Jetro (Japan External Trade Organization) de São Paulo; membro do Grupo de Conjuntura Internacional da USP (Universidade de São Paulo); presidente da Associação Brasileira de Estudos Japoneses; professor de Relações Internacionais nas Faculdades Integradas Rio Branco e na Universidade São Marcos.
E-mail: aruehara@usp.br