O Japão esteve durante toda última década do século XX e nos primeiros anos do século XXI procurando soluções para seus problemas internos econômicos e políticos. No primeiro campo tem-se como exemplos a falta de crescimento econômico e deflação. Já no campo político houve uma certa instabilidade provocada pelo enfraquecimento relativo do Partido Liberal-Democrático (PLD), que tem dirigido país quase ininterruptamente desde o final da Segunda Guerra, implicando numa sucessão de trocas de primeiros-ministros.
Portanto, a conjuntura atual chama atenção, tanto pelo crescimento econômico registrado nos últimos meses, como pela permanência do atual primeiro-ministro no cargo. Koizumi, o atual premiê japonês, assumiu o cargo em abril de 2001 e dentre os vinte e oito primeiros-ministros do segundo pós-guerra, ele já é o quinto com maior tempo no cargo, atrás apenas de Eisaku Sato (sete anos e oito meses), Shigueru Yoshida (seis anos e dois meses), Yasuhiro Nakasone (cinco anos) e Hayato Ikeda (quatro anos e cinco meses). Essa marca é destaque também porque, depois do estouro da bolha em 1991 e da conseqüente crise econômica japonesa, o país do sol nascente passou por um período de grande movimentação política, incluindo reformas de partidos, do sistema eleitoral, a saída do (PLD) do governo, ainda que por um período relativamente curto e várias trocas de primeiros-ministros. Koizumi poderá subir ainda mais nesse ranking, dado que foi eleito, em 20 de setembro de 2003, presidente do PLD por mais três anos, isso lhe permitiria manter-se pelo menos por mais dois anos no cargo, o que lhe daria o terceiro lugar nessa lista.
O que explica essa longa permanência de Koizumi no governo? Podem ser citadas duas razões principais: a primeira está ligada à figura pessoal do primeiro-ministro e as reformas que vem se tentando desenvolver no Japão; a segunda seria a ausência de um político que possa substitui-lo, tanto dentro do próprio PLD, como dentre os partidos de oposição, pois a população não confia na experiência do Partido Democrático do Japão (PDJ), maior partido de oposição.
Com relação à pessoa de Koizumi, pode-se destacar a sua popularidade com elemento importante para a sua manutenção no governo, uma vez que as expectativas e as esperanças da população por uma recuperação do Japão foram nele depositadas. O atual primeiro-ministro tem tido uma imagem, que tem conseguido defender, de que é um político diferente no Japão, que está acima das relações tradicionais de poder e que, por isso, pode levar avante as reformas domésticas necessárias ao país. Essa imagem tem se sustentado e permitido a manutenção da sua popularidade, porém há que se notar também que neste momento, Koizumi tem lançado iniciativas que vão para o campo internacional, propondo alterações na legislação japonesa para que as “Forças de Auto Defesa” do país possam atuar no exterior e com isso, revitalizar também o status internacional do país, que ficou enfraquecido a partir da última década do século XX.
E no caso do Japão a revitalização econômica é um elemento fundamental para que o país recupere sua posição internacional, pois sua inserção desde o segundo pós-guerra tem se baseado muito na sua pujança econômica, tanto pelo status que a posição de segunda economia mundial lhe confere como pela instrumentalização de recursos econômicos como ferramentas de diplomacia, que até o início dos anos 1990 era utilizar em maior escala por Tóquio.
Dessa forma, a ênfase que Koizumi tem colocado nas reformas estruturais desde o início de seu governo, com alterações tanto na economia como no âmbito do governo japonês, parecem ter sido colocadas como base para as suas iniciativas externas. A reestruturação é um tema que vem sendo desenvolvido nesse país há três anos e os recentes resultados positivos na economia japonesa são defendidos pelo governo de Tóquio como os primeiros resultados dessa transformação no Japão. Resultados, aliás, que o ajudaram na sua eleição a presidente do PLD em setembro de 2003, quando o índice nikkei fechou o mês com uma média de 10.219 mil pontos, uma recuperação média de 30,5% em relação a abril desse mesmo ano, quando o índice fechou com a menor média desde a crise econômica iniciada com estouro da bolha econômica em 1991, com apenas 7.831 pontos.
A eleição de Koizumi ao cargo de presidente do PLD também marcou uma significativa mudança na política japonesa, pois, ao longo de décadas, nesse partido os caciques que detinham o controle dos recursos para realização das campanhas eleitorais conseguiam ter suas facções sob rígido controle. Nesse sistema, o líder do maior grupo dentro do PLD indubitavelmente se tornava o presidente do partido e, por conseguinte, o primeiro-ministro. Na última eleição, porém, isso não ocorreu. Ainda que haja elementos estruturais, como a reforma do sistema eleitoral de 1994 – que canalizou as disputas entre partidos e a introdução de recursos públicos para o financiamento de campanhas, diminuindo a força dos caciques – a escolha de Koizumi refletiu favoravelmente à sua imagem reformador.
No campo econômico, há ceticismos em relação à recuperação do Japão, pois tem havido desde os anos 1990 ciclos de deflação com momentos de modesto crescimento. Todavia, desde meados de 2003 a economia japonesa tem dado sinais de que as reformas podem estar conduzindo o Japão a superação do período de estagnação e revertendo sua trajetória de deflação. Alguns analistas defendem que está recuperação se diferencia de outros ciclos e pode ser uma retomada sustentável. Masaru Yoshitomi, ex-diretor da Agência de Planejamento Econômico do Japão, em seu artigo “Japan Emerges from the Shadow of Deflation” na revista Japan Echo de agosto de 2004, lista três fatores principais de distinção dos outros ciclos para o crescimento atual:
1) o crescimento da economia tem seguido independentemente de políticas Keynesianas. Desde 2000 o governo japonês tem reduzido de 5% a 6% os investimentos públicos. Nas fases anteriores de crescimento econômico do Japão nos anos 1990, houve importante participação de recursos do governo, fazendo com que a dívida pública (nacional+local) se elevasse para cerca de 155% do PIB.
2) o nível de lucros das corporações tem sido mais elevado do que dois anos atrás.
3) as exportações japonesas para os países da região asiática têm passado por uma vigorosa expansão, o que pode estar sinalizando que o Japão tem reencontrado seu papel na divisão de trabalho.
Uma demonstração dessa intensificação do relacionamento comercial regional pode ser percebida pelos dados de janeiro a setembro de 2004 no relatório da Jetro, Value of Exports and Imports by Area and Country (2004/1-7), que apontam um crescimento de 23,5% nas exportações japonesas totais com relação ao mesmo período de 2003 e um crescimento médio de 31,4% para as exportações aos países da Ásia. Tomando-se os NICs e a China (+ Hong Kong) que juntos representam 37,7% das exportações totais japonesas, temos que para o mesmo período, as exportações subiram 41,6% para Taiwan, 36,6% para a Coréia do Sul, 35,5% para China, 27,2% para Cingapura e 25,1% para Hong Kong. Para os EUA, que representam sozinhos 22,5% das exportações totais do Japão, o crescimento nesse período foi de apenas 9,8% e para União Européia dos 15, que significam 15,1% das exportações japonesas, o crescimento foi de 18,8%.
Outro diferencial interessante é apontado por Naoki Tanaka, analista sênior do Instituto de Pesquisas sobre a Economia Nacional do Japão, no artigo “At last end to deflation” publicado na revista Japan Echo de dezembro de 2003, que é o fato desta recuperação se dar não apenas pelos dados do presente, mas pelas perspectivas que estão sendo criadas. No caso das ações na bolsa de Tóquio “novas demandas tem surgido em resposta à melhora das expectativas com relação à performance de algumas empresas em particular … [neste momento] os preços imobiliários e das ações são baseados somente nos registros passados. Sem considerar os compromissos futuros, não é possível se dizer se os preços são altos ou baixos. Quando os preços de alguns imóveis e as ações de algumas empresas começam a se alterar, isto é porque as pessoas começam a olhar de modo diferente o futuro”. Olhando o retrospecto do índice nikkei desde 2000, nota-se que é exatamente no primeiro semestre de 2003 que ocorre uma reversão da tendência de queda do índice nikkei.
No setor privado há novos investimentos sendo realizados, motivados por dois fatores principais: 1) pela conclusão dos processos de reestruturação das empresas japonesas, que passaram novamente a apresentar lucros, o que tem permitido, por sua vez, planejarem seu futuro e 2) pela necessidade de renovação de equipamentos pelas empresas instaladas em território japonês. Isso porque nos últimos anos os investimentos realizados pelas organizações japonesas foram direcionar para as plantas no exterior.
As alterações tributárias também deverão contribuir a sustentabilidade do crescimento da economia japonesa. A primeira, introduzida no final do ano fiscal de 2003 permite a utilização de 10% a 12% dos valores dos tributos a serem pagos para a pesquisa e o desenvolvimento (P&D) até 2006, depois desse período a porcentagem cairá para 8% a 10%. Outra medida fiscal avaliada positivamente é a redução dos tributos sobre os investimentos em ações, que visa incentivar os cidadãos japoneses a investirem nesse mercado.
Esses fatos têm contribuído para a mudança nas perspectivas da população e do setor privado japoneses sobre os rumos da economia do país, refletindo no índice de confiança do consumidor de 49,2 pontos medido em agosto de 2003 no Japão, o maior desde junho de 1991, quando foi registrado 49,4 pontos, agora é esperar para ver.
Alexandre Ratsuo Uehara, professor de Relações Internacionais das Faculdades Integradas Rio Branco, pesquisador do NUPRI/USP (Núcleo de Pesquisa em Relações Internacionais da Universidade de São Paulo) e membro do GACINT/USP (Grupo de Conjuntura Internacional da Universidade de São Paulo), presidente da Associação Brasileira de Estudos Japoneses (ABEJ), analista político-econômico da Jetro – Japan External Trade Organization (órgão oficial de comércio exterior do Japão).





