Acordo comercial pode ser um marco para uma nova etapa nas relações Mercosul-Japão, diz jornalista

O jornalista político e esportivo Celso Kinjô, editor-chefe do Jornal da Tarde, um dos maiores e mais respeitados jornais do país – pertencente ao grupo Estado -, ministrou palestra durante jantar dos associados da Câmara sob o tema "relações Brasil-Japão, do ponto de vista da mídia brasileira". O evento aconteceu em São Paulo, no dia 14 de maio com a presença de cerca de 100 pessoas.

Celso Kinjô participou, ao lado do presidente da Câmara Makoto Tanaka e do cônsul-geral do Japão em São Paulo, Hitohiro Ishida e do conselheiro Takashi Goto e dos vice-presidentes Seiji Ishikawa e Masahiro Kanaoka.

Um dos principais pontos considerados importantes por Celso Kinjô é "todo o desejo" de uma aproximação entre o Mercosul e o Japão, no sentido de promover a integração econômica. "Um futuro acordo comercial entre Japão e Mercosul poderia muito bem servir de marco para uma nova etapa nas relações. O Brasil, sendo o maior mercado consumidor do continente, e dispondo da maior comunidade japonesa fora do Japão, reúne todas as condições para comandar esse processo", afirmou. O embaixador Sérgio Amaral, no governo Fernando Henrique Cardoso, propôs um acordo, em visita a Tóquio, no ano 2001.

Ele lembra que sinais de reaquecimento nas relações Brasil-Japão podem ser observados com a recente ampliação dos investimentos pela Toyota e Honda e a participação da Mitsui na Companhia Vale do Rio Doce, mas ainda distante dos níveis da década de 70, quando o Japão chegou a ser o terceiro maior parceiro comercial e o terceiro investidor direto no Brasil.

Citou uma pesquisa realizada no Japão sobre o ambiente dos investimentos japoneses em cinco países – Brasil, Tailândia, China, México e Argentina -, que apontou o Brasil como o melhor, tendo sido o mais votado nos itens de Relações Humanas e Culturais, e Relações Econômicas. Obteve nota máxima de oito pontos em dez questões. E o Brasil foi mencionado como um dos mercados mais importantes do mundo, ao lado da China. "Tudo isso tem a ver com a presença marcante da comunidade japonesa no Brasil, a presença de empresas japonesas no dia-a-dia dos brasileiros", diz.

Como entraves para a atração de investimentos, ele enumera o "custo Brasil", a superposição de impostos, as leis trabalhistas, a infra-estrutura industrial precária e problemas de logística. "Isso não vai se resolver num ano, muito menos num governo de quatro anos. Na verdade, o 'custo Brasil' onera fundo as empresas nacionais, cujas lideranças de classe manifestam insatisfação com o apetite tributário do Estado".

Por isso, segundo o jornalista, é importante que instâncias como a Câmara de Comércio e Indústria Japonesa do Brasil, levem adiante a discussão, para fomentar o debate, trazendo economistas, autoridades, "no sentido de que o governo possa sentir a distância entre intenção e gesto". "Uma futura visita do presidente Lula ao Japão seria um passo importante, mas desde que levasse na bagagem medidas que demonstrassem a intenção de abrir portas para as empresas japonesas".
"O Brasil está precisando de capital e tecnologia, que dêem sustentação a um projeto de desenvolvimento. Afinal, o Brasil tem, além de recursos naturais, algumas tecnologias que podem interessar muito ao Japão, especialmente no que se refere ao meio-ambiente. O álcool é um combustível limpo que interessa à China e, obviamente, também ao Japão", afirmou o jornalista.

"Num agudo levantamento intitulado 'Como atrair capital estrangeiro para o Brasil', o sr. Teiji Sakurai, da Jetro de São Paulo, alinha uma série de recomendações para que isso de fato aconteça. Em 50 anos, de 1951 a 2001, investimentos japoneses no Brasil chegaram a US$ 14 bilhões. Ano passado, o volume foi de US$ 1,3 bilhão. É muito pouco para o tamanho do Brasil e a disposição das empresas japonesas", disse.

Celso Kinjô defende que os empresários indiquem o caminho ao governo. "O governo não vem aos empresários, porque a solidão de Brasília, citada por todos os que vivem ou viveram lá, turva a visão da realidade. É importante, dessa maneira, que os empresários indiquem o caminho ao governo", sugere o jornalista, observando a realização do debate aberto, da exposição de idéias e da utilização da imprensa como tribuna para projetos de desenvolvimento.

Palavras do presidente

Além de desejar boas-vindas ao jornalista, uma pessoa relativamente ainda jovem, o presidente em seu discurso enalteceu a importância da participação dos nikkeis no desenvolvimento do país e sendo reconhecidos pela sociedade brasileira. "É uma grande honra ver a competência e o talento de um representante nikkei se destacando na mídia do país", disse.

"O jornalista Celso Kinjô desfruta de elevado conceito e grande prestígio no meio jornalístico brasileiro. Atualmente, dirige um dos mais destacados jornais do país, o Jornal da Tarde, pertencente ao Grupo Estado. Em sua brilhante carreira, trabalhou nas redações de importantes veículos de comunicação do país. Foi chefe de Redação da Central Globo de Jornalismo de São Paulo. Recebeu em 1967 o Prêmio Esso de Jornalismo de Equipe, o maior prêmio de jornalismo brasileiro da época", destacou o presidente.

Imprensa no Brasil

O jornalista fez uma retrospectiva sobre a imprensa no Brasil e destacou a importância do seu papel no intercâmbio entre países. "Conhecer um pouco a forma como trabalham os jornais e os jornalistas ajudará a abrir horizontes, no sentido de uma compreensão mútua, que leve ao objetivo comum, de aumento das relações entre os países".

Celso Kinjô acrescentou que a imprensa no Brasil não é diferente da de outros países, pois segundo ele "reflete a realidade da cidade, do país e do mundo".

Lembrou que na década de 50 e início de 60, a imprensa, em especial os jornais, era altamente politizada. "Mais que politizada, era partidária. Os jornais ou eram a favor, ou contra o governo. Os governos usavam subsídios, como os de importação de papel, por exemplo, além de verbas de publicidade, para manipular a favor de seus interesses. Os empresários do setor, por sua vez, até conspiravam para apoiar ou derrubar regimes".

Segundo ele, em entrevistas recentes, o diretor do grupo Estado, Ruy Mesquita, lembrou ter participado com seu pai, Júlio Mesquita Filho, de reuniões com políticos, empresários e intelectuais, onde se preparou a revolução de março de 1964, época da Guerra Fria com a ameaça comunista, que justificavam a bipolarização. "Depois, veio a censura, que atingiu fortemente os jornais do grupo Estado, Estadão e Jornal da Tarde. A partir de 1968, ao longo de quase uma década, a censura prévia instalou-se nas redações, lendo rigorosamente tudo o que iria ser publicado, determinando o que poderia e o que não poderia sair. Os jornais não se curvaram, mesmo sendo os únicos – além de jornais da imprensa alternativa ou nanica – a sofrer esse tipo de sanção, que significa na prática não poder oferecer ao público um produto cem por cento bem acabado".

Celso Kinjô considera a luta pelas liberdades democráticas no Brasil como o "maior legado" que o grupo Estado deixa para a história do país. "Por mais que concorrentes queiram reescrever a história usando as armas milagrosas do marketing, nenhum órgão de imprensa lutou mais pelas liberdades democráticas neste país – e sofreu na carne por isso – do que o Estadão, em mais de um século, e o Jornal da Tarde, nestes 40 anos", declarou, em discurso.

Em relação à década de 70, o editor teceu comentários sobre o "milagre econômico", que fez o Brasil ter crescimento a elevadas taxas, para em seguida, após a crise do petróleo, sofrer um grande impacto. Lembra que também que foi a década que marcou uma retomada dos investimentos diretos de multinacionais japonesas. "Parecia que finalmente tinha chegado a hora do Brasil – sempre louvado como o "país do Futuro", um futuro que ainda não chegou", disse.

O jornalista observa que nos anos 80 houve o fenômeno da inflação, que atingiu diretamente e diariamente a população, que mudou o foco de cobertura da imprensa. Paralelamente, os anos 80 foram para o país, a famosa "década perdida". Com o fim do regime militar, houve a redemocratização e a criação de uma nova Constituição. "Um fenômeno que o Japão não conheceu, desde o advento do seu milagre econômico, a inflação brasileira parecia não ter limites. A década se perdeu na combinação de hiperinflação com economia estagnada. As taxas de desvalorização da moeda chegaram a mais de 30% ao mês. Esse desarranjo nos orçamentos das pessoas e das empresas forjou novo tipo de informação jornalística, a dos índices econômicos. Só de inflação chegamos a ter mais de cinco – IBGE, Fipe, FGV, índice da classe média, índices oficiais etc.". Com isso, acrescenta o jornalista, "os jornais passaram a publicar suplementos voltados para a nova realidade – o Jornal da Tarde, aliás, foi o primeiro a perceber a importância dessa informação, não para quem tinha dinheiro, mas para quem não tinha, ou porque ganhava pouco ou porque via o dinheiro ser corroído a cada segundo. E assim criamos a seção Seu Dinheiro, ainda no final dos anos 70".

Mas a maior contribuição segundo Celso Kinjô, foi a convivência do brasileiro com a inflação do dia-a-dia, que o fez um especialista em "além do futebol, em economia, até porque se trocavam ministros de Economia ou técnicos de seleção com freqüência semelhante…".

Ele conta que a partir de 94, o cenário mudou com a chegada do Plano Real, que causou "uma ruptura no processo econômico e na cobertura da imprensa". "Se o país pôde respirar com alívio, sem o fantasma da inflação a assustá-lo, a imprensa econômica mudou. A cobertura ficou mais técnica, mais analítica. A globalização, por fim, envolveu a todos, e não se pode mais discutir um processo econômico, uma decisão ou uma tendência, sem que se situe o contexto global em torno dele", explicou.

Diante desse cenário do jornalismo econômico, ele diz que a busca por informações exclusivas se tornou uma obsessão. "É o que no Brasil chamamos de 'furo', dar a notícia primeiro. A globalização contribuiu para acirrar a disputa pela informação, pois, inseriu o Brasil na rota dos capitais internacionais".

Leva vantagem, explica ele, quem consegue "estabelecer um relacionamento consistente e saudável com a imprensa". "Dispor de aparatos como assessoria, agência de relações públicas, é fundamental. Mas, mais que isso, é imprescindível criar pontes com os jornalistas, as redações", completou.

Ele observa que o jornalista brasileiro, que foi forjado entre uma ditadura e uma hiperinflação, "é quase sempre um crítico e um pessimista". "Uma e outra levavam as autoridades a escamotear informações, a encobrir realidades, até mesmo a esconder epidemias, como aconteceu com o surto de meningite, nos anos 70". "Não se contenta com um simples 'press-release' ou uma informação geral de entrevista coletiva. Seu objetivo é investigar sempre mais, é batalhar a informação exclusiva, em busca de uma manchete para o seu jornal. Se na imprensa japonesa a cobertura é formal, através de entrevistas coletivas que tem início e fim previamente conhecidos pelas partes, na imprensa brasileira a regra é ir a fundo, é derrotar o concorrente no dia-a-dia. Questão de cultura, uma questão importante para quem chega no Brasil sem maiores referências".

"Possivelmente, estilo "low-profile" da empresa japonesa acaba se inibindo e inibindo uma aproximação com uma imprensa brasileira que tem seus exageros, sem dúvida, mas se pauta pela responsabilidade. Para dar um pequeno exemplo, já vi em meus anos de Jornal da Tarde empresas japonesas se recusarem a dar entrevista ou passar uma informação por telefone, exigindo a presença física do jornalista – isso aconteceu já na época em que a internet operava. Empresas de cultura ocidental, como americanas e espanholas, habituadas a esse ambiente jornalístico competitivo, ganham destaque maior quando divulgam uma informação sobre um determinado investimento", diz.

Em sua opinião, a imprensa brasileira alcançou uma maturidade, que permite situá-la entre aquelas que detêm mais credibilidade no mundo. "Informação mentirosa, ou falsa, ou forjada, é algo muito raro, praticamente banido das grandes redações sobretudo após o advento dos chamados 'manuais de estilo', que são bíblias internas onde se ensina desde o modo de escrever uma notícia até a forma de conduzir uma entrevista, não esquecendo da postura ética obrigatória. A etapa do sensacionalismo, própria de uma imprensa despreparada ou voltada para o simples comércio da informação, essa etapa está extinta no Brasil", concluiu.

Rubens Ito / CCIJB – 14/05/2004